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[GAIDENS] AS CRÔNICAS DE ATHENA


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  • 1 mês depois...

LEMBRE A HISTÓRIA

 

Epílogo (Primeira Parte): Passasse algum tempo desde que Saga fora ordenado Cavaleiro de Ouro. Em Londres na Inglaterra, dois mercenários, Rachel e Sendhil, são contratados por um Lemuriano desconhecido de alcunha Warlock para que libertem Kanon de sua prisão no Sunion.

 

Epílogo (Segunda Parte): Depois de invadirem o Santuário sem serem vistos, a dupla Rachel e Sendhil, munidos com as Armaduras Negras de Triângulo e Cão Maior respectivamente, se veem frente a frente com os Soldados de Athena. Rachel abate, a tiros, facilmente dois deles. Sendhil, de posse de sua técnica FERA HUMANA, também não encontra dificuldades para remover do seu caminho os soldados Serov e Yun. No entanto, Petrus, outro Soldado de Athena, intercepta-o e um combate entre eles tem seu prenúncio.

 

Epílogo (Terceira Parte): Sendhil acaba derrotado e depois de ser posto fora de ação, se vê diante de um cerco e prestes a ser encarcerado no Sunion. Não tão distante dali, sua parceira, Rachel, até tenta ajudá-lo, mas o disparo do rifle empunhado por ela, que teria abatido pelas costas, Petrus, acaba sendo interceptado pela flecha disparada por Rosavia, uma das Amazonas de Athena. Como Sendhil, Rachel também se vê em sérios apuros, já que após ter sua arma avariada, um grupo de soldados a teria rodeado, todos prontos para abatê-la.

 

Epílogo (Quarta Parte): Numa amostra de suas incríveis habilidades, Rachel consegue vencer, numa única ação, todos os Soldados de Athena que a ameaçavam. Enquanto isso, não muito longe dali, um ‘anjo’ negro salvava Sendhil do cárcere no Sunion. Este se revela sendo Garan, o Cavaleiro Negro de Sagitário. Em seu encalço, o Santuário mobiliza Aioros.

 

Epílogo (Quinta Parte): O helicóptero, usado por Rachel e Sendhil na invasão do Santuário, acaba sendo descoberto por uma guarnição de Soldados de Athena. Estes levam a notícia até Algol. O Cavaleiro de Prata de Perseu, na incumbência da proteção daquela área como um dos Capitães da Guarda, e ciente deste, e de outros fatos, decide pessoalmente ir até a aeronave, onde espera confrontar os invasores em sua dedutível fuga do Santuário. Partindo de um raciocínio similar, ele também envia até o Sunion, um de seus Tenentes, Cavaleiro de Bronze, já que a prisão poderia ser outro bom palpite com relação aos intrusos e suas pretensões. Enquanto isso, o passado de Rachel vem à tona por meio desta, quando a dupla de Cavaleiros Negros interinos, finalmente chega até o local do cárcere de Kanon.

 

Epílogo (Sexta Parte): Garan e Aioros protagonizam, nos céus do Santuário, um duelo bastante equilibrado. Ao mesmo tempo, no Sunion, a narrativa de Rachel sobre seu passado prossegue, e essa começa a se expor, mostrando-se atormentada, o que acaba deixando Sendhil, bastante preocupado; fica sabido que ela, no tempo que estivera com os seguidores de Athena, fora ordenada Amazona de Bronze da constelação de Triângulo Austral. Noesis teria cuidado de sua preparação no controle das Anomalias. Fizera o mesmo com relação à Shaka. As recordações de Rachel se encaminham para um confronto com Phoebos. Em outro ponto do Santuário, a velha bruxa, que detinha o controle dos Cavaleiros Negros na Ilha da Rainha da Morte, a tudo observava com um macabro interesse; ao seu lado, imponente, estava Mu, que se apresentava como o Áries Negro e com a alcunha, de Warlock.

 

 

 

Epílogo (Prólogo da Revolta dos Cavaleiros Negros) — sétima parte

 

 

Em frente à cela de Kanon, no Sunion,

com Sendhil e Rachel, que chegava na

conclusão daquilo que narrava

sobre o seu passado.

 

— A princípio o Santuário havia cogitado a possibilidade de isolar a área que Phoebos, o Mephisto de Mammon, havia reivindicado para si, tratando o local como amaldiçoado, colocando-o sobre seu julgo e estado de permanente vigilância; tudo com o intuito de impedir o acesso de desavisados, e possíveis acidentes...

 

“Sabiam que ao fundir sua essência divina com o lugar, aquele Rei do Inferno, que representava o Pecado da Ganância, impusera sobre si mesmo, a determinação de dali, não mais se ausentar.”

 

“No entanto, durante o confronto que tiveram com o mesmo, do qual Serket, o Cavaleiro de Ouro de Escorpião, tragicamente perdera a vida, o Grande Mestre ouvira da própria divindade, que logo, este teria poder para expandir seus domínios.”

 

“Como um câncer, aquele filho de Ares pretendia alastrar-se, tomando todo o planeta, estabelecendo a partir daí, um novo e sombrio reino, que o traria como soberano, onde até mesmo Zeus e a seu pai, teriam que se submeter.”

 

“O Santuário estava disposto a impedir que essa tragédia ocorresse!”

“Como o isolamento da área fora descartado, sobreveio à hipótese de aniquilar completamente o lugar, mas todos bem sabiam que tal ligação estabelecida por Phoebos era por de mais profunda.”

 

“A destruição perpetrada, teria que atingir as profundezas subterrâneas da Terra, alcançando, inclusive, seu núcleo, o que iria irremediavelmente danificar boa parte do planeta e provavelmente, colocar em risco, o restante de sua integridade.”

 

“E ainda tinha a vida das pessoas inocentes que o Deus Menor havia tomado para si.”

 

“Mesmo sabendo, que eram nulas, as chances de romper a ligação que os fundia — o Grande Mestre descobrira isso, por conta própria, durante o primeiro encontro que tiveram com o Daemon de Ares — o Santuário, em nenhum momento desistira de salvá-las.”

 

Eu, ao menos, não havia!”

 

“À medida que o tempo passava e as opções para deter a divindade iam se esgotando, a tensão aumentava.”

 

“Quando chegou a notícia, por intermédio dos Batedores, que os domínios de Phoebos haviam dilatado no prazo de poucos dias, apesar de bem menos célere do que esperado, dando a impressão que algo o retardava, e que estava agora próximo de uma área populosa, Shion se viu ainda mais pressionado e uma decisão drástica, que estivera sendo evitada, precisava agora ser tomada.”

 

“O êxito dependia das Anomalias que Shaka e eu, desenvolvíamos com Noesis.”

 

“Apenas a maldição que residia em nós, poderia reverter todo aquele pesadelo, e impedir que um novo e abjeto mal, dominasse toda a Terra.”

 

“Lembro-me muito bem do momento em que estávamos reunidos, com o Grande Mestre, em seu salão.”

“Nosso Tutor, o Cavaleiro de Prata de Triângulo, com mais dois Cavaleiros de Ouro remanecentes de sua geração, e que a propósito, eram os únicos, naquele momento, a guardar as Doze Casas, também se faziam presentes, e ficou nítido, desde o começo, que ambos nos acompanhariam.”

 

“Quando Shion começou a abordar os detalhes de seu estratagema e em meio a isso, discursar sobre a honra e as responsabilidades de ser um devoto de Athena, passara também, a nos observar atentamente.”

 

“Buscava, em nós, o velho Lemuriano, alguma amostra de dúvida ou, mesmo de medo.”

 

Não encontrou nada disso!

 

“Havia apenas o fervor e a convicção, quase que insanos, na crença daqueles propósitos.”

 

Mas cabe a nós, servos da Deusa da Sabedoria, tomar as difíceis decisões em prol de um bem maior... — dizia ele, chegando ao fim de seu discurso.”

 

“Parecia satisfeito com aquilo que enxergara em nós.”

 

“Sua voz eloquente, trazia um leve tom de satisfação e cumplicidade.”

 

Não há sacrifício pequeno ou grande demais... apenas o sacrifício! — e foi com essas palavras que Shion encerrara.”

 

“E até hoje, continuam a ecoar na minha mente, trazendo vergonha e remorso.”

 

“Todos naquele cômodo, inclusive eu, em resposta, ergueram inflamados seus punhos para cima, e bradaram alto e em bom som:”

 

Por Athena!”

 

“Na época eu não tinha a real compreensão do que aquilo tudo implicava, nem imaginava, mesmo que remotamente, que os eventos que estavam por vir, mudariam para sempre, a minha vida.”

 

“Entenda Sendhil: eu estava apenas querendo cumprir bem o meu papel.”

 

“Atender as expectativas daqueles que me deram tudo.”

 

“Finalmente, acreditava, que havia encontrado meu lugar.”

 

“Que pertencera a uma causa que era maior que a mim mesma e minhas vãs futilidades.”

 

“Eu não era um monstro...”

 

“Minha família me fizera crer naquilo, mas o Santuário me convencera que era uma dádiva, e não uma maldição, o poder das Anomalias que eu trazia comigo dos meus ancestrais, desde o meu nascimento.”

 

“No entanto, escapava de mim, o entendimento verdadeiro daquilo que estávamos prestes a realizar; creio eu, que era a única ali, a padecer daquela ignorância.”

 

“Em minha cegueira, pensava estar acima da humanidade.”

 

“Tomada pelo orgulho da minha força e pela nobreza da causa que defendia achava que as decisões que seguia, como sendo minhas, eram soberanas, e que as consequências das mesmas, não podiam me atingir.”

 

Como me enganara a respeito disso!”

 

“E como descobriria tal coisa da pior maneira.”

 

“Naquela mesma tarde, uma comitiva partira do Santuário, carregando consigo, a esperança de toda humanidade. Era liderada pelo Grande Mestre, formada por um Aspirante, uma Amazona de Bronze, e três Cavaleiros, sendo um dentre eles de Prata e os outros dois, de Ouro.”

 

“Íamos todos ao encontro do Mephisto de Mammon...”

 

“Para aonde a morte acenava!”

 

“Ao chegarmos ao local na Itália, na ilha Poveglia, meu sangue gelou de pavor, com aquilo que encontramos.”

 

“Mesmo com todo o meu treinamento, e preparo, não estava realmente pronta para aquilo...”

 

“Era um pequeno vilarejo esculpido num imenso vale descampado, que mais se assemelhava a um deserto rochoso, recortado por um riacho, que agora se exibia, quase que completamente, seco.”

 

“Não havia vida em parte alguma ou sinais de qualquer coisa semelhante.”

 

“Apenas o odor pútrido de morte e de algo que mente humana alguma poderia descrever de imediato.”

 

“Uma névoa rasteira misturava-se com a areia, construções e rochas.”

 

“Sombras se confundiam umas nas outras.”

 

O lugar mais se parecia com um pesadelo!

 

“Algum arremedo distorcido da realidade.”

 

“O Cosmo, repleto com intenções ruins, estava em todo lugar, misturando-se com o ambiente...”

 

“Era, de certa forma, muito parecido com a sensação que eu sentia no Santuário:”

 

Todo o vilarejo a nossa volta, estava vivo!”

 

“Assim como Athena, no passado, de posse da técnica DESENCARNAÇÃO, fundira-se com seu Santuário, Phoebos era agora, um só com aquele local.”

 

“Mas não era somente a energia emanando pulsante do lugar, havia também, de uma forma ínfima, o Cosmo daquelas pessoas que por ali viviam antes da chegada do Deus Menor.”

 

“Lembro-me bem que fechei meus olhos na ocasião, e com meu poder mental, empregado a partir da SONDA TELEPÁTICA, pude ver algo impressionante:”

 

“Uma ‘teia’ intricada de luz estendia-se em todas as direções do vilarejo, e captava para si, muitos pequeninos pontos de energia.”

 

“Mesmo a treliça que formava a realidade ligara-se, de alguma forma, a ela.”

 

“No exato centro, desse emaranhado, existia uma única chama vibrante.”

 

E eu soube, como se aquilo me atingisse como a um raio, que se tratava de Phoebos...”

 

“E que as centelhas diminutas presas na ‘teia’ eram as pessoas inocentes daquele lugar!”

 

“Intrigado com a decomposição estranha da matéria orgânica e inorgânica, daquilo que havia na vila, inclusive o solo e o próprio ar, Shion, ao abaixar-se e pegar um punhado de terra na mão, o examinando com profunda preocupação, depois de um tempo, nos dissera que o filho de Ares alimentava-se do lugar, e que também lançava mão da energia deste, em suas liberações de poder; por isso tudo estava morrendo.”

 

“Se pudesse, o Grande Mestre desejaria ter verificado, com mais calma e precisão, até onde no subsolo e nos céus, aquilo havia chegado.”

 

“Mas estava claro que cedo ou tarde o Daemon exauriria aquela fonte, seja por sua fome ou desprendimento de força, e além de se autodestruir, comprometeria fatalmente o planeta, já que sua degradação desceria até o núcleo, e acima da superfície, abriria um rombo na atmosfera.”

 

“Estávamos nós, ainda digerindo aquela nova, e terrível descoberta, quando ouvimos um clamor vindo de todas as direções:”

 

REBENTOS DE PHOEBOS!

 

“A voz pertencia ao, ainda oculto de nossas vistas, Mephisto de Mammon. E mediante ao seu chamado, incorporavam, vindos aparentemente do nada, uma monstruosa horda de Bichos Papões.”

 

“Exibiam com a figura de humanóides encapuzados, envoltos por um longo, e esfarrapado manto, onde em suas bordas, escapava uma repulsiva névoa negra, que ia se dissolvendo no ar.”

 

“Seres de natureza astral, provindos dos pesadelos dos moradores daquela vila, que a partir do agrupamento de inúmeras propriedades materiais, possuíam agora, um corpo físico, podendo interagir com os vivos, os Bichos Papões se divertiam sadicamente, impondo a suas vítimas, o terror de confrontar seus medos mais arraigados, assumindo formas horripilantes através de seus poderes transmorfos, manifesto pela técnica: SÍNDROME DO PESADELO.”

 

“Normalmente, as vítimas acabavam enlouquecidas, com suas mentes perturbadas para o resto de suas vidas.”

 

“Não demorou, e a prole de Phoebos, passara a personificar nossos piores temores!”

 

“Contudo, tínhamos vindo ali, preparados e aquela iniciativa, por parte daquelas criaturas, era mais que esperada.”

 

“Para começar, como acontecera no primeiro encontro com aquele Rei do Inferno, para evitar as emanações psíquicas do mesmo, que induziam ao sono, pesadelos e medos falsos, o Grande Mestre recomendara a ingestão de um chá que fora preparado pelo Cavaleiro de Ouro de Peixes.”

 

“Além dessa infusão com ervas, Primeval, depois de muito insistir com um de seus experimentos bizarros, envolvendo plantas, na Décima Segunda Casa do Zodíaco, criara um vegetal mutante, que eventualmente, se alimentariam dos Bichos Papões, banhando-os constantemente no ácido de suas ‘bolsas’ que formava o papo abaixo de suas bocarras, retardando assim, ou mesmo anulando, sua imortalidade imposta graças à regeneração constante de seus corpos.”

 

E dera mesmo certo!”

 

“Transmitindo absurdamente seu Cosmo, para o solo abaixo dos seus pés, numa postura que lembrava o de prece, depois de ter esparramado pelo chão, algumas sementes que trazia num alforje de couro acoplado na cintura de sua Armadura, o Cavaleiro de Ouro de Peixes, fizera emergir seu, BANQUETE SILVESTRE, onde a prole de Phoebos, privada da inutilidade de seu poder transmorfo, pelo fato daquelas plantas carnívoras não serem sencientes, e apenas direcionadas mentalmente pela vontade de Primeval, acabaram encontrando seu fim.”

 

“Irritado com aquilo, e profundamente ultrajado, o filho de Ares decidira vir até nós, como já prevíamos, para nos eliminar pessoalmente!”

 

“Sobe aquela perspectiva de revelação, todo o cenário do vilarejo parecera ressentir: céu e terra convulsionavam, agrupando-se liquefeitos, dando os contornos, em meio aquela distorção e materialização, a uma figura monumental.”

 

“Uma coroa dourada e uma máscara em vermelho escuro, feita exclusivamente de Oricalco, com um semblante perpétuo de cobiça a lhe marcar as feições, partia do topo da criatura, sendo acompanhada, indo em direção ao solo, por uma capa escarlate que parecia fazer sua existência oscilar entre os Planos: Material e Astral.”

 

“Diante do colosso éramos insignificantes, míseros insetos!”

 

“Cavaleiros de Athena...”

 

“Até onde pode chegar sua audácia e estupidez?!”

 

“Particularmente, eu não conhecia aquela linguagem vinda do Deus Menor, mas a compreendia, telepaticamente, no seu mais completo sentido, graças ao meu Cosmo, como me tinham ensinado a fazer no Santuário a partir da CONSCIÊNCIA CÓSMICA.”

 

Será que não entendem qual deve ser o seu lugar?!”

 

“Está certo, dessa vez nenhum de vocês escapará:

 

CANHÃO ASTRAL!

 

“Gritou, e vimos sua capa se abrir, revelando do seu interior, uma massa gelatinosa de corpos acinzentados que se fundiam em algo que só poderia ser descrito como abominável.”

 

“Como se estivessem agoniados por um sonho ruim, esses, com expressões de torpor, se mexiam debilmente, como que buscassem lutar contra o pesadelo que os acometia.”

 

“Foi então que o esclarecimento daquela visão hedionda me veio...”

 

“Aqueles eram os moradores do vilarejo!”

 

“Ali mesmo eu não me contive, e desabei em lágrimas, sentindo tão desgraçadamente sua dor, como se essa fosse minha.”

 

“Preocupado, e não menos solicito, Noesis veio em meu amparo, mas eu me encontrava inconsolável, e com o rosto enfiado em seu peito, envolta pelos seus braços, chorava copiosamente.”

 

“Enquanto isso, aquele Rei do Inferno, em sua cólera desenfreada, dava prosseguimento na execução de sua técnica, fazendo uma revoada de corpos astrais se desprenderem da massa viva que compunha seu corpo, concentrando-os a frente, e no meio da testa de sua máscara, originando a partir disso, uma portentosa esfera espectral.”

 

“O Daemon de Ares inclinara-se pronto para o disparo.”

 

“Shion, assumira a dianteira.”

 

“Visivelmente preocupado, sabia de antemão, que numa situação normal, o CANHÃO ASTRAL de Phoebos apagaria algumas de nossas lembranças, impondo-nos uma amnésia parcial.”

 

“No entanto, agora, fortalecido como estava, o Grande Mestre temia que, caso fossemos atingidos, nossos ‘eu’ astrais, ou seja, nossas almas, fatidicamente, seriam eliminadas, e nossos corpos tombariam, por consequência, catatônicos.”

 

“Preparava-se para nos salvaguardar, mesmo entendendo que, de certo, o poder defensivo de seu MURO DE CRISTAL não fosse suficiente para tamanha contenção, quando a divindade movera, inesperadamente, sua cabeça para o alto, exprimindo uma agonia exasperante, fazendo com que a energia, antes condensada na fronte, fosse disparada a esmo, recortando os ares.”

 

Anéis de vento, semelhante a vórtices, com areia em seu interior, haviam surgido, sem qualquer aviso prévio, em torno do filho de Ares, e à medida que a areia aderia ao imenso corpo, cintilava em rubro, triturando-o até não restar nada, teleportando randomicamente, aquilo que estava sendo afligido.”

 

“Com pedaços seu faltando, o Deus Menor padecia e mesmo diante de sua reestruturação, que o ressarcia de suas perdas, a dor não podia ser evitada.”

 

“Por um instante, ficamos todos paralisados sem entender, até que Kabouri, reconhecendo o Cosmo por de trás daquele poder, identificou aquilo como sendo obra do falecido Serket.”

 

“Deduzia que o Cavaleiro de Ouro de Escorpião, durante o seu perecimento, alvejara Phoebos, com seu TELEPORTE SIROCCO(1), e este, mesmo depois de sua morte, a partir de sua vontade inquebrantável, continuava ativo, retardando o Mephisto de Mammon em suas pretensões como agora e o fazendo sofrer.”

 

“O Cavaleiro de Ouro de Câncer, diante daquela certeza, parecia comovido, inclusive tinha as vistas, obstruídas por lágrimas.”

 

“Quando combateram a divindade, juntos, anteriormente, ele havia decidido abdicar de sua vida, oferecendo para ficar na retaguarda, detendo assim, o Daemon enquanto os outros escapavam. Contudo, Serket insistira em tomar o seu lugar.”

 

“Falara a Kabouri que aquela sua geração de Cavaleiros não tivera, diante de si, uma Guerra Santa para travar, ou mesmo uma crise semelhante aquela, e não que ele desagradasse dos tempos de paz, era por aquilo, sobretudo, que lutavam e se sacrificavam, mas o guerreiro que havia em seu interior, sentia a falta de combates onde sua força fosse atestada.”

 

E ali estava a oportunidade!”

 

“Mediante ao enfraquecimento da técnica do Cavaleiro de Ouro de Escorpião, que não tardaria em desaparecer por completo juntamente com o Cosmo que a ativava erraticamente, Phoebos conseguira romper os anéis de vento e areia, recuperando assim, totalmente sua integridade.”

 

“Proferira novas imprecações e planejava nos destruir sem que nada, dessa vez, o impedisse, quando entrara em cena, o Cavaleiro de Ouro de Câncer com seu TEATRO DE FANTOCHES. Agitava, Kabouri, seus dedos no ar, como se fosse um ventríloquo, fazendo com que o Mephisto de Mammon caísse num transe hipnótico, imergindo, e se perdendo, em suas ilusões.”

 

“Estas, só podiam ser percebidas por Kabouri e pelo próprio Phoebos.”

 

“Veio então à ordem de Shion, para que Noesis, Shaka e eu fizéssemos aquilo que fora combinado...”

 

“Com a junção de nossos poderes, pretendíamos realizar o que Merlin e suas filhas tentaram num passado longínquo:”

 

“A criação de um Djinn!”

 

“Um ser que seria capaz de realizar qualquer desejo sem que esse maculasse a realidade.”

 

“De mãos dadas, formando um círculo, clamando juntos, pela técnica SUJEIÇÃO DA REALIDADE, nossos Cosmos, ardendo em plenitude, geraram uma Anomalia descomunal, e desta, vimos surgir uma entidade que da cintura para baixo convertia-se em fumaça; este ficara suspenso no nosso meio, acima de nossas cabeças, aguardando servil, o que lhe seria ordenado.”

 

“Desejamos então que o tal Djinn desfizesse o que fora feito ali, naquele local, por Phoebos.“

 

“Apartado, forçosamente, dos efeitos da DESENCARNAÇÃO e de suas demais técnicas mentais, inclusive da conexão que mantinha com as pessoas daquele vilarejo, o Deus Menor encolhera até voltar ao seu estado normal.”

 

“Desprendia dele, numa grande debandada, os moradores locais, sendo estes, apanhados nos ares, pelo benevolente Cosmo do Grande Mestre, que os envolvia calidamente numa sólida e quase impenetrável aura.”

 

“Seguindo com o plano, Kabouri recuara, cessando com seu poder ilusório, já que chegara à vez de Primeval agir:”

 

“Este já havia desativado, há tempos, seu BANQUETE SILVESTRE, em vista de que o mesmo neutralizara, satisfatoriamente, a ameaça dos Bichos Papões e já não tinha mais razão de ser.”

 

“Aguardara, desde então, intensificando ao máximo seu Cosmo, por aquele momento!”

 

“Uma única semente fora pega de seu alforje. Antes de lançar mão dela, olhara-a com reverência, recordando-se de como cuidara zelosamente dela, alimentando-a com seu poder, por décadas.”

 

“Antes dele, seu mestre havia feito o mesmo, e também, o mestre do seu mestre, e anterior a eles, houvera outros, até que chegasse aquela semente, à sua incumbência...”

 

Este era o seu legado:

 

“O último traço de uma das Feras Mitológicas mais implacáveis de Réia(2)...”

 

“A gigantesca árvore carnívora que caminhava: Ya-Te-Veo(3)!”

 

“Ele a teria usado antes, em seu primeiro embate com o filho de Ares, caso Shion o tivesse permitido; o Grande Mestre não achava prudente o uso daquele recurso, e mesmo agora, se mostrava inseguro.”

 

YA-TE-VEO RESSURGIDA!”

 

“O Cosmo do Cavaleio de Ouro de Peixes, fluía sem controle como a um rio caudaloso, para sua mão onde a semente repousava pulsante. Esta fora então ingerida, e a partir disto, germinava num processo de desenvolvimento, incrivelmente, acelerado, envolvendo a figura de Primeval, transformando-o, sendo um com ele.”

 

“Sobreveio aquela, que acreditávamos ser, a batalha final, e Ya-Te-Veo mostrava-se, como o previsto, superior a Phoebos. Tal vantagem provinha dos seus mais variados recursos, que envolvia desde sua força titânica, ao ‘abraço’ e espinhos lançados pelos seus galhos-tentáculos, a nuvem de veneno expelida como pólen, das enormes pétalas que ficavam no centro de seu corpanzil, emoldurado este, também, pelos galhos que eram dispostos a volta, como se ela fosse uma gigantesca estrela do mar. No meio desta estava sua bocarra, armada por inúmeras fileiras de dentes triangulares que eram dispostos em arcos que afunilavam, convergindo-se numa cavidade escabrosa de onde ácido era cuspido. Havia também sua regeneração acelerada e a capacidade de atrair, e concentrar radiação solar, liberando um raio abrasivo devastador.”

 

“Erguendo-se dolorosamente do solo, feições, agora visíveis pela perda de sua máscara, com sua coroa e Malebolge(4) arruinadas, o Daemon encontrava-se impotente diante da ineficiência de seu grandioso poder psíquico, que pouco, ou nada, podia fazer contra aquele monstro abissal que trazia impresso, em sua mente primitiva, apenas a vontade de lhe destruir.”

 

“Tudo parecia se encaminhar para um desfecho favorável, quando então ouvi, dentro da minha mente, as vozes chorosas daqueles que seriam condenados, a destruição, juntamente com aquele Rei do Inferno.”

 

“E ao lançar meu olhar em suas direções, eu os tinha visto, mesmo que imersos na segurança do poder do Grande Mestre, agonizar e morrer!”

 

“A razão disso, não era outra, senão a ligação que ainda mantinham com Phoebos.”

 

“O Djinn que geramos não era pleno em seu poder, o mesmo trazia em seus desejos atendidos, limitações.”

 

Rachel se deteve na narrativa.

 

A Amazona Negra de Triângulo, outrora Amazona de Bronze de Triângulo Austral, pusera as mãos nos olhos para tentar, inutilmente, conter as lágrimas que teimavam correr sem controle.

 

Desabara em meio a soluços, apertando o solo e gritando, totalmente transtornada e tomada pelo remorso.

 

Sendhil via aquilo tudo sem conseguir esboçar a menor das reações.

 

Em meio ao desespero, o Cavaleiro Negro de Cão Maior a viu retomar sua história, como se houvesse nela, a necessidade insana de chegar ao fim daquilo:

 

— P-Para mim, o pior dos horrores, descortinava...

 

“A apoteose de todas as desgraças que fizeram parte da minha vida.”

 

Rachel... concentre-se... mantenha sua mente limpa... precisamos de você...”

 

“A voz na minha cabeça pertencia a Shion.”

 

“Mas como eu podia fazer o que me era ordenado quando os lamentos de tantos vinham a mim como uma torrente desordenada?!”

 

“Como negligenciar os pedidos lamuriosos para que eu fizesse alguma coisa para salvá-los?!”

 

“As perguntas... os ‘porquês’ de estarem passando por aquilo...”

 

Ah, Athena, me ajude! Por sua infinita bondade e misericórdia, tenha compaixão dessas pobres vidas!” — sussurrei durante uma prece, com todo o fervor que detinha — “Não as deixe perecer dessa forma, salve-as, por favor!” — pedi, não, na verdade, implorei.

 

“E alguma vez na minha vida eu havia implorado por qualquer coisa, como estava fazendo ali?! Quem era aquela gente, o que elas tinham haver comigo?!”

 

“No entanto, a dor delas era minha, e queria eu, poder fazer alguma coisa.”

 

“Mas veio a mim, não Athena, mas o Djinn!”

 

“A estranha criatura esfumaçada, atraída por um anseio maior, suplantara a vontade anterior que o fizera interromper o poder de Phoebos e começara impedir que os moradores do vilarejo morressem. Em contrapartida a isso, o Daemon de Ares recuperara parte de sua força, já que os efeitos de sua DESENCARNAÇÃO e das demais habilidades psíquicas que lançara mão retornavam em sua efetividade, conseguindo assim o Mephisto de Mammon, tornar menos evidente, a superioridade que a árvore carnívora mantinha sobre ele.”

 

“Alarmado com o que estava acontecendo, e temendo pelo fracasso de nossa incursão, Shion dirigiu-se a mim imbuído de toda sua autoridade:”

 

Rachel, detenha agora sua vontade direcionada para o Djinn ou todos, inclusive esses inocentes que anseia em salvar, perecerão.”

 

“Esta é uma guerra. Infelizmente há perdas. Essas pessoas morrerão para que muitos outros possam viver.”

 

É o preço a ser pago!

 

“Minha cabeça girava em desordem.”

 

“Por um lado estava feliz pelos moradores estarem a salvo, por outro, sabia da calamidade que se sucederia, caso aquele Rei do Inferno recuperasse toda sua força de outrora.”

 

Não há vida para eles agora, a não ser no sacrifício.” — Shion declarava — “Faça o que lhe ordeno!

 

NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!” — eu gritei a plenos pulmões, ignorando a razão e o dever, mantendo minha vontade, e à medida que fazia isso, a Armadura de Bronze de Triângulo Austral me deixava, em nítida discordância da decisão que fora tomada.

 

“Com o prosseguimento daquele impasse, Phoebos recuperara muito de sua força, conseguindo agora igualar o confronto com Ya-Te-Veo.”

 

“Se aquilo continuasse, o Mephisto de Mammon tornar-se-ia invencível novamente e a Fera Mitológica de Réia cairia diante dele, assim como nós.”

 

“Foi então que um clarão descera dos céus e envolvera completamente a figura de Shaka.”

 

“Uma vestimenta dourada materializara sobre ele...”

 

Tratava-se da Armadura de Ouro de Virgem!”

 

“De posse dela, seu poder, que já era surpreendente, atingira um patamar ainda mais elevado, sobrepujando facilmente minha vontade que guiara o Djinn até então e isso fora decisivo para o desastroso fim que acometera Phoebos, sendo ele, por fim, depois de enfraquecido uma vez mais, devorado por Ya-Te-Veo.”

 

“Tinha que ser aquele o desfecho de tudo, no entanto, como já temia de antemão o Grande Mestre, a árvore carnívora voltara-se contra nós.”

 

“A triste conclusão que chegávamos era que havíamos trocado uma calamidade por outra ainda maior, já que, se aquele monstro nos vencesse e se fosse dali espalharia uma mortandade e destruição sem igual.”

 

Eu reprimo, na minha alma, a sede natural que os seres humanos trazem consigo. Anulo, em mim, a distração dessa existência mundana que me afasta do que é verdadeiramente bom. E retiro todo descontentamento pelo meu próximo. Que a barreira do eterno nos proteja: KAHN!(5)

 

“Dizendo tais palavras, como a um mantra, uma esfera magnânima de luz partira de Shaka e envolvera a todos nós, sendo isso providencial, já que Ya-Te-Veo tentara nos eliminar com seu raio abrasivo.”

 

“Antes que a Fera Mitológica de Réia pudesse tentar outra investida, fora alvejada pelo poder do Cavaleiro de Ouro de Virgem:”

 

Eu repudio toda a negatividade ao meu redor! Que a luz em meu interior se intensifique no seu esplendor máximo e que o mal seja por ela, purificado: OHM(5)!”

 

“Feixes radiantes projetavam-se das mãos espalmadas de Shaka, num ângulo perfeito de 360º graus.”

 

“Parecia que dali, partia o sol e que estava amanhecendo.”

 

“E esse brilho majestoso transpassara a árvore carnívora, banhando-a, consumindo inteiramente sua figura colossal.”

 

“Quando o fulgor esmaecera, no lugar de Ya-Te-Veo ficara uma semente, um recém nascido e a Armadura de Ouro de Peixes.”

 

“E assim chegava ao seu final aquela crise.”

 

“Phoebos deixara de existir e junto dele, os inocentes que eu queria tanto ter podido salvar.”

 

“Eu falhara com toda aquela gente. Era culpada por participar daquilo que as destruíra. E isso haveria de se tornar meu fardo...”

 

Minha eterna vergonha!

 

“Quanto aos outros, descartando Primeval que havia voltado a ser um bebê por causa do poder do Cavaleiro de Ouro de Virgem, Shion, Kabouri, Noesis e Shaka, estes apreciavam o que tinham feito, regozijando sem qualquer remorso.”

 

Amavam, além da razão, seus papéis naquela tragédia, como os seres humanos sempre o fizeram na absoluta liberdade moral da guerra...”

 

Parecia que caíra o silêncio no Sunion.

 

Sendhil, certo de que a história terminara, fizera um comentário que não fora assimilado por Rachel.

 

A garota tão pouco ouvia o vento ou a chuva que retornara.

 

Sua mente, mergulhada em pensamentos e lembranças, pesava os acontecimentos que sobrevieram aquele fatídico dia:

 

A maneira como fora repreendida por sua insubordinação, sendo afastada.

 

De como se tornara displicente e rebelde com aquilo que lhe impunham.

 

Sua própria descrença em Athena.

 

A abdicação de sua Armadura, que por si só já havia renegado-a, e o abandono do Santuário, que não tardara.

 

Sua breve estada na Ilha da Rainha da Morte.

 

Como havia então se isolado, tendo apenas Sendhil como companhia, como se convencera de que era algum tipo de mal, fazendo às vezes de monstro e que a partir daí, passara a viver em indiferença com o mundo, sem se importar o quão cruel e hediondo pudessem a vir serem seus atos.

 

As poucas vezes que estivera com Warlock(7) e entregara-se a paixão arrebatadora que sentia por ele, tornara-se o único momento de sua vida onde experimentava alguma paz.

 

E detida agora, olhos fixos no nada, chorando, mas odiando isso também, desejava ardentemente, que o jovem Lemuriano estivesse ali.

 

Buscava se refazer quando percebera o rosnado baixo, e nervoso do parceiro ao seu lado e o Cosmo hostil as suas costas.

 

Ao virar-se, contemplou, surpresa, sentando numa saliência rochosa que se projetava das águas do Egeu, com as pernas e braços cruzados, um Cavaleiro de Bronze!

 

 

(1): O Sirocco é uma tempestade com ventos fortes, quentes e carregados de poeira, podendo chegar, a durar, quatro dias. Sua decorrência se dá em algumas localidades da Europa e África.

 

(2): A mitologia grega trás a Giga Equidna como a ‘mãe’ das inúmeras Feras Mitológicas dispersas em seu registro e contos, combatidas tão duramente por Deuses e Heróis. Contudo, aqui nas Crônicas de Athena é diferente, além das Feras Mitológicas abrangerem, além da grega, outros mitos e crendices, este papel de ‘mãe’, coube a Titã Réia.

 

(3): Vinda de lendas africanas, a Ya-Te-Veo seria uma combinação híbrida de fauna e flora, exibindo-se na forma de uma monstruosa árvore carnívora. Podendo caminhar, está se servia de seus galhos, para agarrar animais ou mesmo pessoas, para então, devorá-los.

 

(4): Lembrando que aqui nas Crônicas de Athena, Malebolge é o nome que recebera a vestimenta de Ares e seus seguidores.

 

(5): Khan provém do sânscrito ‘imobilidade’, e também se trata de uma invocação ao Deus Hindu homônimo à técnica, Acalanatha.

 

(6): O “Ohm” vem da decorrência do som, em se tratando das crenças Hindus, que representa o eco da consciência universal.

 

(7): Trazendo a mente de vocês, leitores, Warlock, revelou-se no capítulo anterior do Epílogo deste Gaiden, como sendo Mu.

Editado por Leandro Maciel Bacelar
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  • 2 meses depois...

LEMBRE A HISTÓRIA

 

Epílogo (Primeira Parte): Passasse algum tempo desde que Saga fora ordenado Cavaleiro de Ouro. Em Londres na Inglaterra, dois mercenários, Rachel e Sendhil, são contratados por um Lemuriano desconhecido de alcunha Warlock para que libertem Kanon de sua prisão no Sunion.

 

Epílogo (Segunda Parte): Depois de invadirem o Santuário sem serem vistos, a dupla Rachel e Sendhil, munidos com as Armaduras Negras de Triângulo e Cão Maior respectivamente, se veem frente a frente com os Soldados de Athena. Rachel abate, a tiros, facilmente dois deles. Sendhil, de posse de sua técnica FERA HUMANA, também não encontra dificuldades para remover do seu caminho os soldados Serov e Yun. No entanto, Petrus, outro Soldado de Athena, intercepta-o e um combate entre eles tem seu prenúncio.

 

Epílogo (Terceira Parte): Sendhil acaba derrotado e depois de ser posto fora de ação, se vê diante de um cerco e prestes a ser encarcerado no Sunion. Não tão distante dali, sua parceira, Rachel, até tenta ajudá-lo, mas o disparo do rifle empunhado por ela, que teria abatido pelas costas, Petrus, acaba sendo interceptado pela flecha disparada por Rosavia, uma das Amazonas de Athena. Como Sendhil, Rachel também se vê em sérios apuros, já que após ter sua arma avariada, um grupo de soldados a teria rodeado, todos prontos para abatê-la.

 

Epílogo (Quarta Parte): Numa amostra de suas incríveis habilidades, Rachel consegue vencer, numa única ação, todos os Soldados de Athena que a ameaçavam. Enquanto isso, não muito longe dali, um ‘anjo’ negro salvava Sendhil do cárcere no Sunion. Este se revela sendo Garan, o Cavaleiro Negro de Sagitário. Em seu encalço, o Santuário mobiliza Aioros.

 

Epílogo (Quinta Parte): O helicóptero, usado por Rachel e Sendhil na invasão do Santuário, acaba sendo descoberto por uma guarnição de Soldados de Athena. Estes levam a notícia até Algol. O Cavaleiro de Prata de Perseu, na incumbência da proteção daquela área como um dos Capitães da Guarda, e ciente deste, e de outros fatos, decide pessoalmente ir até a aeronave, onde espera confrontar os invasores em sua dedutível fuga do Santuário. Partindo de um raciocínio similar, ele também envia até o Sunion, um de seus Tenentes, Cavaleiro de Bronze, já que a prisão poderia ser outro bom palpite com relação aos intrusos e suas pretensões. Enquanto isso, o passado de Rachel vem à tona por meio desta, quando a dupla de Cavaleiros Negros interinos, finalmente chega até o local do cárcere de Kanon.

 

Epílogo (Sexta Parte): Garan e Aioros protagonizam, nos céus do Santuário, um duelo bastante equilibrado. Ao mesmo tempo, no Sunion, a narrativa de Rachel sobre seu passado prossegue, e essa começa a se expor, mostrando-se atormentada, o que acaba deixando Sendhil, bastante preocupado; fica sabido que ela, no tempo que estivera com os seguidores de Athena, fora ordenada Amazona de Bronze da constelação de Triângulo Austral. Noesis teria cuidado de sua preparação no controle das Anomalias. Fizera o mesmo com relação à Shaka. As recordações de Rachel se encaminham para um confronto com Phoebos. Em outro ponto do Santuário, a velha bruxa, que detinha o controle dos Cavaleiros Negros na Ilha da Rainha da Morte, a tudo observava com um macabro interesse; ao seu lado, imponente, estava Mu, que se apresentava como o Áries Negro e com a alcunha, de Warlock.

 

Epílogo (Sétima Parte): A narrativa de Rachel, sobre seu passado, envolvendo, entre tantas coisas, uma crise com Phoebos, chega ao seu final. Determinada em concluir o propósito de libertar Kanon, que a fez invadir o Santuário e chegar até o Sunion, a Amazona Negra de Triângulo, juntamente com seu parceiro Sendhil, vê colocar-se em seu caminho, um Cavaleiro de Bronze.

 

 

 

 

Epílogo (Prólogo da Revolta dos Cavaleiros Negros) — oitava parte

 

 

— Me cubra, Rachel!

 

Pedira o rapaz louro de estatura elevada, musculatura rígida, que detinha traços animalescos, devido ao primeiro estágio de sua FERA HUMANA, lançando um breve olhar de esguelha para a parceira, abandonando este, em seguida, a posição, onde permanecera rosnando, que mantivera até então, ao seu lado, assumindo agora a frente da dupla, galopando a toda velocidade, na direção do Cavaleiro de Bronze, ainda sentado na rocha, com braços e pernas cruzadas.

 

Sem hesitar, a ruiva de trança sacara suas pistolas, e em meio às palavras — SABRE DE BALAS — executara um salto mortal para frente.

 

Enquanto completava o meio arco da acrobacia até o pouso no solo, com sua figura enrodilhada, semelhante uma bola, de suas armas em punho, voltadas para o alto e descendo, às balas dos pentes eram ‘cuspidas’ num único arroubo, traçando uma linha alaranjada que ia de encontro ao alvo e também de Sendhil.

 

Como que já sabendo, de antemão, o que a parceira faria, Sendhil, mesmo antes de Rachel entrar em ação, assumira uma rota adjacente, passando a deslocar-se, em segurança, por um dos flancos.

 

Com seus sentidos ampliados fixos no alvo, o Grande Cão Negro notara quando a imagem do Cavaleiro de Bronze, prestes a ser alcançada pelos lasers de Rachel, perdera a nitidez e materialidade, sumindo.

 

A saliência rochosa, onde outrora, estava assentado, acabara atingida no seu lugar, partindo-se ao meio com as bordas derretidas e em brasas.

 

Dividida esta, horizontalmente, mergulhara na capa d’água, de onde emergira, afundando e sendo oculta pelo Egeu.

 

Cinco metros a frente de onde a rocha acabara de ser cortada, plainando no ar a uma altura vertiginosa do chão, com os braços estirados, dobrados um pouco nas juntas dos cotovelos, pescoço inclinado para frente e um dos joelhos flexionado, surgira o Cavaleiro de Bronze.

 

Peguei!

 

Sibilara Sendhil num sorriso perverso que marcava apenas um dos lados da face.

 

Seus trejeitos davam a entender que toda aquela escapadela fora prevista.

 

Num bote, aparentemente certeiro, ‘voara’ de encontro ao alvo.

 

Estava seguro que o agarraria em pleno ar e uma vez realizado isso, no caminho fatídico de regresso até o chão, com o pescoço desprotegido daquele Cavaleiro de Bronze sob sua mira, usaria seus caninos proeminentes para dilacerá-lo, fazendo o sangue da garganta de sua vítima jorrar até culminar naquilo que seria sua morte irremediável.

 

Teria dado certo, caso Kraisto(1), não fosse capaz, dentre tantas coisas, de levitar.

 

De posse de seu GRAVITAÇÃO PLANAR, manifesto este, através de pequenos comandos enviados pelo seu Cosmo até o núcleo da Terra, Kraisto podia fazer, por intervalos curto de tempo, o peso daquilo existente na superfície do planeta, aumentar e diminuir, ou mesmo, ordenar com que estes liberassem pulsos de atração, capazes de trazer para si, pequenos corpos, e os fixar a sua estrutura, imobilizando-os.

 

E foi assim que o Segundo Tenente da Área Leste do Santuário, sob o comando de Algol, frustrara o pretendido pelo Cavaleiro Negro de Cão Maior, já que uma vez parado no ar, não estaria mais em queda livre, e obviamente, nem na posição calculada.

 

Privado de seu ardil, a situação se invertera e dessa vez, era Sendhil que ficara exposto, e Kraisto, tirando vantagem disso, movera até ele, ‘desaparecendo’ e ‘reaparecendo’.

 

Um tranco no peito fizera a trajetória aérea do parceiro de Rachel, ser abruptamente, interrompida.

 

O que o atingira fora um chute voador, deflagrado, como era de se esperar, pelo Cavaleiro de Bronze de Cruzeiro do Sul.

 

A perna estendida encontrava-se levemente dobrada na altura do joelho, o que remetia a manobra, a lembrança de um ‘pisão’.

 

Em vista do choque violento entre os dois corpos, ambos se detiveram; enquanto Sendhil esboçava uma careta de dor ante ao duro golpe que acabara de receber, Kraisto, como se fosse um adepto da Luta Livre, aproveitara para usar uma das mãos como alavanca, segurando-o pela cintura, movendo-se para suas costas, imobilizando os braços e tórax a seguir, naquilo que consistia num ‘abraço’ apertado.

 

O solo voltara a reivindicá-los para si.

 

Despencando dos céus, a queda, naquela posição desfavorável, já seria danosa para o Grande Cão Negro, em especial por ele encontrar-se privado da tiara de sua Doppelgänger, perdida anteriormente num dos seus combates com os Soldados de Athena, mas tudo acabara se tornando pior, quando o Segundo Tenente, clamando GRAVITAÇÃO PLANAR, fizera uma parte do chão abaixo deles, emitir um pulso que tornara Sendhil tão pesado, como uma aeronave de pequeno porte.

 

Com o desastroso impacto, o chão se arrasara, desestabilizando ao ponto de fazer toda área do Sunion sacolejar. Nas celas de sua abrangência, apenas um dos prisioneiros, Kanon, se mostrava alheio aquele desastre, os outros, porém, tomados pela curiosidade, sem saber ao certo o que estava acontecendo, tentavam voltar suas vistas para o alicerce da prisão onde o embate ocorria.

 

Kraisto planava acima da devastação que já se aquietava.

 

Sabiamente, havia se desvencilhado de Sendhil antes desse chegar ao solo.

 

Braços cruzados... pernas juntas, igualmente finas como a cintura, encimada por um torso anormalmente avantajado...

 

A figura consideravelmente alta do Cossaco(2) ucraniano, somada aos contornos clericais de sua vestimenta azulada, onde a tiara da mesma, se parecia com um barrete papal, exalava reverência.

 

Viu este, quando Rachel, em meio aos últimos traços da poeira baixando, levantava-se.

 

Sua jaqueta de couro entreaberta estava suja e rasgada.

 

O mesmo acontecera com o colante que a vestia.

 

Pequenos cortes, distribuídos nos locais onde seu traje metálico deixava de guarnecê-la, indicavam que estilhaços haviam alvejado-a.

 

— Vamos, intrusos...

 

Voltou-se para a Amazona Negra, descruzando os braços musculosos que, assim como seu peitoral, eram desproporcionais a parte inferior do seu corpo.

 

— Esforcem-se para que, ao menos, eu possa fingir que isso aqui... é uma batalha...

 

Apontara-lhe a mão:

 

GRAVITAÇÃO PLANAR!

 

Rachel, que estava prestes a ativar sua SONDA TELEPÁTICA, para obter assim, acesso antecipado às ações daquele Cavaleiro, abandonara essa pretensão no momento que sentira uma leve vibração, acometê-la internamente.

 

Temerosa, percebera quando, na fração de segundo seguinte, algumas pedras, dispersas a sua volta, emitiram espasmos, começando a se mexer, dando a impressão desagradável de estarem vivas.

 

Na mesma curta medida de tempo que se sobreveio, algo invisível partira dela, atraindo para si estas rochas, como se Rachel houvesse se tornado um imã.

 

Por uma diferença mínima, conseguira saltar, evitando ser esmagada.

 

Enquanto tocava o solo, ficando agachada, remuniciara suas pistolas.

 

Por sua vez, o rapaz louro de sardas estava movendo o braço, uma vez mais, na sua direção, para muito provavelmente, tentar outra ofensiva.

 

SERRA BUMERANGUE!

 

Arremessara Rachel, num movimento de arco, uma de suas armas.

 

Ao fim daquela investida, sugeria a ação, que a pistola, devido a uma alteração deliberada em sua aerodinâmica, regressaria para sua mão.

 

Mediante giros ininterruptos em seu próprio eixo de rotação, a arma, em pleno voo, descarregava seus projéteis, com o gatilho permanentemente travado devido a um mecanismo acrescido em uma das laterais da coronha da pistola, na mesma velocidade do SABRE DE BALAS, formando um anel que dava a impressão de abranger todas as direções em sua passagem.

 

Apenas indivíduos, com velocidade próxima a de um Cavaleiro de Ouro, conseguiriam, esquivar-se, encontrando nos curtíssimos intervalos entre o anel e sua manutenção, espaço para manobrar.

 

Se esse não fosse o caso de Kraisto, algo que a Amazona Negra de Triângulo cogitava, tendo a lógica em seu amparo, o Tenente estaria perdido!

 

Era muito provável que as balas, agindo como um laser, não seriam capazes de romper a estrutura da Armadura de Bronze que este usava, no máximo, conseguiriam, com certa seriedade, danificá-lo, entretanto, existia locais onde o traje não cobria e era justamente nesses pontos que Rachel esperava que sua técnica atingisse.

 

Surpreendentemente, o Cossaco ucraniano não adotara a defensiva, como era de se supor que teria feito, continuou movendo o braço até ela, apontando-o.

 

Contudo, dessa vez, seu alvo, era outro!

 

Mirava no que havia as costas da Amazona Negra de Triângulo, mais precisamente as grades da cela onde estava Kanon, fazendo com que a estrutura emitisse uma atração irresistível, fazendo a pistola, regredir em sua trajetória, passando através da figura instável de Rachel, indo espatifar-se com a colisão.

 

Para evitar ser fatiada pela sua própria técnica, a parceira de Sendhil aspirara e absorvera uma porção dos triângulos cósmicos que já havia anteriormente liberado e que envolvia desde então todo o Sunion.

 

Em contato com o laser circular da pistola, sua imagem perdera a consistência, dando a nítida impressão que dispersara.

Assim que a arma passara, não oferecendo mais perigo, voltara Rachel, à materialidade, exibindo-se incólume.

 

Usando seu poder que afetava a estabilidade dos Três Planos — SUJEIÇÃO DA REALIDADE — a Amazona Negra evocara uma Anomalia para tirá-la de onde estava e devolvê-la em seguida.

 

— R-Rachel...

 

A voz abafada de Sendhil cortara o combate.

 

Seus fortes braços, sujos e ensanguentados, armados com proteções negras nos antebraços, e providos, em seus dedos, com unhas afiadas, rompiam o solo, retirando sofregamente um escombro aqui e outro acolá, abrindo caminho para que ele deixasse o local onde fora enterrado, fazendo-se atuante, uma vez mais, no campo de batalha.

 

Postara-se entre a parceira e Kraisto.

 

Respiração alterada.

 

Fragmentos desprendendo das fissuras dos ombros e costas de sua Dolppelgänger de Cão Maior.

 

— D-Deixe esse Cavaleiro c-comigo...

 

Abrira os braços, como se quisesse bloquear a passagem.

 

FERA HUMANA!

 

Os traços animalescos, antes sutis, de sua pessoa, acentuavam-se agora, tornando-o monstruoso.

 

Sem contestações, a Amazona Negra de Triângulo lhe dera as costas, guardara a pistola que lhe sobrara e encaminhara para frente da cela onde estava Kanon.

 

— Tenho diante de mim, ao que parece, um par de amadores...

 

O Grande Cão Negro sentira, espantado, quando uma força invisível o puxara, desequilibrado, até Kraisto, que com umas das mãos estendidas até ele, parecia fazer um gesto de ‘chamá-lo’ para si.

 

Os dedos do mesmo membro do Cossaco ucraniano que gesticulava para que Sendhil aproximasse, se flexionaram como garras, sendo impulsionado para frente, irradiando um fulgor abrasivo que partira da palma até revestir toda mão.

 

A poucos centímetros de se colidir com o Cavaleiro de Bronze de Cruzeiro do Sul, o Cavaleiro Negro de Cão Maior acabara fulminado por um raio.

 

O disparo fizera com que Sendhil fosse empurrado de volta, colidindo-se, e sendo pressionado contra o solo, afastado alguns metros de onde levantara anteriormente, sendo, por fim, semi-enterrado numa cratera fumegante.

 

Em meio a uma nova onda de dor, com a transformação do segundo estágio da FERA HUMANA prosseguindo a toda, até sua finalização, o parceiro de Rachel mal percebera quando Kraisto o erguera, segurando-o pela face, com sua boca tampada, do chão arrasado.

 

— Afinal, somente indivíduos dessa laia, teriam em mente, algo contra o Sunion ou evocariam, em meio à luta, uma técnica de transmutação na minha presença, achando que eu, passivamente ficaria olhando...

 

Os braços e pernas de Sendhil estavam sendo, agora, violentamente puxados para baixo.

 

A gravidade, que os afligia, tinha aumentado bruscamente devido ao poder daquele Cavaleiro, fazendo-os pesar como se imensas bolas de aço com diversas toneladas, estivessem amarradas a eles.

 

Diferente do Cossaco ucraniano, com a musculatura do seu braço tensionada, dado o tamanho esforço de mantê-lo suspenso, Sendhil não possuía, até então, força suficiente para sobrepor o peso que agora detinha seus membros, e a dor que o consumia ante as fibras musculares e ossos cedendo, era imensurável.

 

Indiferente a eles, Rachel acabara de conclamar: SUJEIÇÃO DA REALIDADE!

 

O que fizera os triângulos cósmicos ao redor da prisão, aderir a sua estrutura.

 

Por um momento, imperou a mais completa quietude.

 

Até que sucedeu o rangido metálico com as barras de uma das celas do Sunion, se erguendo.

 

Kraisto, com uma das vistas cor de âmbar arregalada, e com um risco de suor a lhe cortar o meio da face sardenta, balbuciara algo desconexo, contemplando tal acontecimento, sem crer em sua veracidade.

 

— Você não devia abaixar a guarda desse jeito...

 

Retorquira-lhe uma voz gutural, em nítida troça, mediante a um sorriso que era todo ‘dentes’:

 

— É coisa de... amador!

 

Suplantando, com sua nova, recém adquirida força, a gravidade ampliada sobre seus braços e inclusive, ao próprio Cavaleiro de Bronze de Cruzeiro do Sul, Sendhil afastara a mão deste, que lhe obstruía a boca e o levantara do solo.

 

Outra visão improvável invadira o mundo de Kraisto:

 

O até então, subjugado intruso, aproveitara de seu lapso para completar finalmente sua transformação, alcançando o poder máximo da FERA HUMANA, e de posse desta, livrara-se do seu poder.

 

Sendhil, movendo num bote, arremetera a dentição pontiaguda das gengivas, como a um tubarão, abocanhando covardemente a cabeça do Cossaco ucraniano, engolindo-a, fazendo a descer inteira pela goela, decepando-a na altura dos ombros.

 

 

 

Voltando um pouco no tempo,

com um dos Tenentes de Algol sendo

massacrado pelos Cavaleiros Negros que estavam

ao lado da Velha Bruxa e Warlock

 

 

Nota do Autor: a passagem a seguir, ilustra como se sucedeu, de fato, o que fora meramente citado na Parte 6 do Epílogo deste Gaiden.

 

 

 

Ela os encontrou por estarem em seu perímetro de vigilância, e encontrá-los... significara sua morte!

 

Quando, naquela noite, Algol a reunira juntamente com os demais Tenentes da Guarda Leste, falando a respeito de uma invasão ao Santuário, não imaginava que iria deparar-se, com inúmeros Cavaleiros Negros a espreita.

 

Esses estavam na companhia de uma anciã decrépita e tinham dizimado uma guarnição inteira de Soldados de Athena.

 

Não entendia, como tantos, passara despercebidos pela rede de detecção dos Oficiantes.

 

Nem tão pouco a razão pelo qual as vestimentas negras que portavam — as Shadow(3) — tinham como referência, constelações pertencentes às Armaduras de Prata, quando deveriam somente endereçar as de Bronze.

 

Inclusive, dentre eles, mais afastado e postado dignamente ao lado da velha, observara um em especial, com o traje semelhante ao dos Cavaleiros de Ouro.

 

Mas nada daquilo importava agora...

 

Geist(4) estava sendo surrada e seu doloroso fim... não tardaria!

 

Dois de seus agressores, Centauro Negro e Grou Negro, pegos por sua técnica ESTÁTUA VIVA, que se manifestava por meio de algumas cobras mecânicas disparadas dos canhões em seus braços, acreditavam terem sido transformados em pedra e, portanto, permaneciam imóveis sem oferecer perigo.

 

As tais cobras usadas como projéteis, quando mordiam o alvo, inoculavam em seu corpo, por meio de suas presas curvas e afiadas, um poderoso alucinógeno. Já os canhões irrompiam da amalgama metálica, sendo circundados por víboras entrelaçadas, se estendendo até o comprimento do punho, partindo do início do antebraço.

 

Idiotas!

 

“Não a deixem acertá-los com aquelas... ‘cobras’... ou terminarão como Francesco e Priscila...”

 

Dissera aos companheiros, em advertência Baffour, ao mesmo tempo em que sua figura arredondada esquivava de alguns disparos de serpentes feitos por Geist, desabando dos céus, em seguida, sob ela, esmagando-a como se fosse uma bola gelatinosa.

 

O Cavaleiro Negro de Cetus a erguera, juntamente consigo, do solo, pelo topo do elmo que envolvia todo o crânio, recebendo uma joelhada inesperada numa das laterais de sua pança proeminente.

 

O joelho da Amazona adentrara a massa de gordura, afundando até desaparecer, sem causar o menor dos danos.

 

Baffour sorrira ante isso, sendo acompanhado pelos seus comparsas, que o assistiam em ação, tomados por um êxtase que beirava o sadismo.

 

Em verdade, aquela jovem representava tudo que desejavam ser; tirar dela, isso, causava neles, uma sinistra satisfação.

 

Quando Geist levara um dos braços até Baffour, pronta para alvejá-lo com seu canhão, o Cetus Negro, vociferara em resposta, GÁS DE PIMENTA, escancarando a boca, despejando a partir dela, um hálito venenoso que, de imediato, adentrara pelas aberturas da máscara usada pela Tenente, deixando suas vistas lacrimejantes e tomadas de um ardume insuportável.

 

A Amazona de Bronze de Cabeça da Medusa fora, em seguida, devolvida com brutalidade, de cara, contra o chão, por aquele que lhe incapacitara.

 

Este, por sua vez, aproveitando-se da situação, liberara todo seu peso sobre ela, sentando literalmente em sua cabeça, fazendo suas nádegas avantajadas a comprimirem, sufocando-a, pegando também parte do tórax e braços com a intenção deliberadamente de impedir que Geist pudesse acertá-lo com seus canhões.

 

Mesmo sendo cômica, a cena detinha um risco real e desesperada, com os efeitos do GÁS DE PIMENTA ainda a lhe cegar, a Tenente buscava desvencilhar de tal opressão.

 

Recebera algumas cotoveladas nas costas por isso, e quando o Cavaleiro Negro, ao perceber que ela ainda teimava em se libertar, elevara a voz ao som de:

 

DESMAIO TÓXICO!

 

Uma sonora e desagradável flatulência partira de Baffour, formando uma diminuta, porém espessa, nuvem amarronzada com veios fosforescentes, que encobrira parte de sua cintura, e a jovem do pescoço para cima.

 

Geist experimentava desagradavelmente o odor pútrido de excrementos invadirem seu olfato, comprometendo este, também o paladar, fazendo-a ter violentas crises de vômito ao ponto de quase desmaiar.

 

Mesmo a certa distância dos dois, os outros que estavam com o Cetus Negro, tiveram que obstruir suas vias nasais para evitar a náusea, que vinha daquele mau cheiro que não era proveniente apenas de uma alimentação desregrada e falta de higiene. Como também era o caso do hálito usado na técnica anterior, havia naqueles gases, componentes nocivos que o Cosmo daquele sujeito, desenvolvera a partir da reestruturação molecular Alquimia.

 

Já muito próxima da inconsciência, a Amazona de Bronze de Cabeça da Medusa, com as vistas mal conseguindo focar-se no seu alvo, erguera até onde podia a mão trêmula, apontando-a para um escombro que estava alguns metros deles.

 

Veio o disparo, e a fagulha riscara luminosa o breu da noite, colidindo-se com o destroço que pertencia a torre de vigilância destruída outrora, por aqueles mesmos, Cavaleiros Negros.

 

Uma lufada de sedimentos em brasa, com boa dose de poeira, passara, como um vendaval furioso, por onde Geist e Baffour estavam. Sem entender qual era a pretensão daquela jovem, o Cetus Negro colocara-se instintivamente na defensiva, postando a sua frente, o escudo triangular de sua Doppelgänger, para que esse o salvaguardasse, contudo, acabara desequilibrado e jogado longe, alguns metros.

 

Passado o rebuliço, Baffour, após aprumar-se, certificara-se que os danos que sofrera, eram mínimos. Notara também que a nuvem tóxica de sua técnica, extinguira-se.

 

Provavelmente fora levada com o assopro da explosão.

 

Muito fraca, lutando para se manter desperta, tossindo bastante e ainda com resquícios do que regurgitara saindo por sua boca e narinas, escorrendo da sua máscara até seu queixo, a Primeira Tenente da Área Leste do Santuário, mesmo não tendo mais o peso do Cavaleiro Negro de Cetus sobre si, não conseguia colocar-se de pé.

 

Precisava de tempo para se recuperar.

 

Sucedeu então o pisão inicial, dos muitos que viria a receber...

 

À medida que era pisoteada por seus algozes, que gargalhavam insanamente, tendo estes, suas feições maculadas por um júbilo doentio, e sua vestimenta brônzea, em tons esverdeados nos braços, magenta no resto e com relevos em rubro, cedia ao severo castigo que acometia, deixando-a mercê das agressões covardes que dariam cabo de sua vida, Geist, com a face exposta, dada a ausência de seu elmo e de sua máscara habitual, ambos jaz destruídos, olhos vidrados, alguns fios de cabelo cobrindo-lhe parcialmente o belo rosto, não tinha os pensamentos voltados para sua morte fatídica, nem no caminho que trilhara até aquele fim, muito menos na Deusa a quem servira com tamanha dedicação, mas sim, na amiga, a quem considerava como irmã, Shina, e no sonho delas, de algum dia, ascender à ordem de Cavaleiros de Prata.

 

Pelo menos para Geist... este sonho jamais encontraria realização.

 

 

 

 

Presente. Sunion.

Cela de Kanon.

 

 

 

Com passos comedidos, a Amazona Negra de Triângulo adentrara o local.

 

Detivera-se no momento em que observara a silhueta de um menino assentado nas rochas, oculto este a princípio, pelas sombras tenebrosas do fundo daquela alcova.

 

Percebera, com espanto, a magreza de Kanon e a situação precária de suas vestes, que mais se pareciam com andrajos de um naufrago.

 

A pele clara exibia-se ressequida sobre os ossos e curtida pelo sal da maré que ficara impregnado nos poros.

 

A face era encovada e sem expressão.

 

Os olhos fundos nas órbitas permaneciam fechados.

 

A boca, de lábios finos, estava ferida com diversas rachaduras mal cicatrizadas.

 

O cabelo negro de brilho azulado caia revolto pelos ombros até quase chegar às costas.

 

Mesmo diante daquela figura impassível, e desgraçada, Rachel sentia o ódio hibernante emanar daquela presença.

 

Notara também a maldade, quase que palpável!

 

Essas impressões deixaram a garota ruiva com trança aterrorizada, fazendo-a instintivamente recuar.

 

Por um instante pensara se seria correto libertar aquele pequeno ser, pensou nas atrocidades que este poderia vir acometer.

 

Balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos.

 

Aquilo não importava, não era sua responsabilidade.

 

Tinha um trabalho a fazer e o tempo que dispunha para concretizá-lo era demasiado curto.

 

Kanon! — Ela o chamou pelo nome e esperara por qualquer reação.

 

O menino que chegava aos seus trezes anos de idade permanecera indiferente e silencioso.

 

Em vista disso, a ex-Amazona de Bronze de Triângulo Austral tentara usar de telepatia, mas a mente da figura acomodada em silêncio na rocha, não exalava pensamentos ou qualquer traço de racionalidade, o que impossibilitava o emprego de um canal, para uma interação.

 

— Kanon...

 

Sem alternativas, decidira insistir numa comunicação verbal.

 

— Eu estou aqui porque alguém me enviou para buscá-lo...

 

Prosseguiu no mesmo tom de voz controlado.

 

— Ele se chama Warlock...

 

“Pedira que lhe dissesse que tem os meios necessários, para reverter isso que fora feito a você.”

 

Nada mudara na expressão sem vida do menino.

 

— Estamos ficando sem tempo, Kanon...

 

“Meu poder só manterá o Selo de Athena inativo por mais alguns instantes, depois estará tudo acabado.”

 

Novamente o silêncio que tornava a passagem de cada segundo angustiante.

 

É perda de tempo, Rachel...

 

Quem se pronunciara era Sendhil que por sua vez, tinha se aproximado dela, caminhando de quatro, com o segundo estágio de sua FERA HUMANA ainda ativo, e se postado ao seu lado, como a um imenso cão.

 

— O pirralho não tá te ouvindo, tá todo lesado...

 

“Ele mal respira e seu coração pulsa tão sofregamente, que parece desejoso por parar.”

 

“Vamos embora antes que mais Cavaleiros apareçam.”

 

A ruiva ignorou o parceiro e deu alguns passos decididos na direção de Kanon.

 

Abaixara-se e aproximara os lábios até sua orelha.

 

Em seguida, falara num tom de voz baixo.

 

— Kanon...

 

Repetira as mesmas palavras que Warlock lhe dissera para que fosse falado a ele...

 

Não deseja se vingar do seu irmão, Saga?!

 

Neste momento, os olhos cegos e sem vida se abriram com ímpeto, assustando Sendhil e Rachel, que imediatamente se puseram para longe dele.

 

 

(1): Mediante as devidas adaptações para as Crônicas de Athena, Kraisto fora retirado do primeiro OVA de Saint Seiya, que trazia Éris, a Deusa da Discórdia, e seus ‘Fantasmas’.

 

(2): Sendo um povo nativo das estepes do sudeste da Europa, em principal da Ucrânia e Rússia, os Cossacos tornaram-se imensamente conhecidos pela sua força, bravura e aptidão militar nos meados do século dezessete durante uma revolta que teria dado origem a Ucrânia. Nos séculos dezoito e dezenove, muitos deles, passaram a integrar o exército russo combatendo, com destaque, em conflitos como a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, nos dias de hoje, são vistos como qualquer grupo étnico.

 

(3): Para que recordem, dentro do universo das Crônicas de Athena, as Shadow representam a nomenclatura da primeira geração de armaduras para os Cavaleiros Negros, sendo essas, unicamente derivadas, das constelações dos Cavaleiros de Bronze. Por outro lado, as já bastante mencionadas neste Gaiden, Doppelgänger, nomeiam as de segunda geração que decorrem das constelações de Prata e Ouro.

 

(4): Geist fora inspirada, e tivera muitas de suas características mimetizadas, da personagem, de mesmo nome, que aparecera como ‘Sonotas’ (Cavaleiros sem constelação específica), nos episódios "fillers" da Toei, para o Anime de Saint Seiya.

Editado por Leandro Maciel Bacelar
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  • 1 mês depois...

LEMBRE A HISTÓRIA

 

Epílogo (Primeira Parte): Passasse algum tempo desde que Saga fora ordenado Cavaleiro de Ouro. Em Londres na Inglaterra, dois mercenários, Rachel e Sendhil, são contratados por um Lemuriano desconhecido de alcunha Warlock para que libertem Kanon de sua prisão no Sunion.

 

Epílogo (Segunda Parte): Depois de invadirem o Santuário sem serem vistos, a dupla Rachel e Sendhil, munidos com as Armaduras Negras de Triângulo e Cão Maior respectivamente, se veem frente a frente com os Soldados de Athena. Rachel abate, a tiros, facilmente dois deles. Sendhil, de posse de sua técnica FERA HUMANA, também não encontra dificuldades para remover do seu caminho os soldados Serov e Yun. No entanto, Petrus, outro Soldado de Athena, intercepta-o e um combate entre eles tem seu prenúncio.

 

Epílogo (Terceira Parte): Sendhil acaba derrotado e depois de ser posto fora de ação, se vê diante de um cerco e prestes a ser encarcerado no Sunion. Não tão distante dali, sua parceira, Rachel, até tenta ajudá-lo, mas o disparo do rifle empunhado por ela, que teria abatido pelas costas, Petrus, acaba sendo interceptado pela flecha disparada por Rosavia, uma das Amazonas de Athena. Como Sendhil, Rachel também se vê em sérios apuros, já que após ter sua arma avariada, um grupo de soldados a teria rodeado, todos prontos para abatê-la.

 

Epílogo (Quarta Parte): Numa amostra de suas incríveis habilidades, Rachel consegue vencer, numa única ação, todos os Soldados de Athena que a ameaçavam. Enquanto isso, não muito longe dali, um ‘anjo’ negro salvava Sendhil do cárcere no Sunion. Este se revela sendo Garan, o Cavaleiro Negro de Sagitário. Em seu encalço, o Santuário mobiliza Aioros.

 

Epílogo (Quinta Parte): O helicóptero, usado por Rachel e Sendhil na invasão do Santuário, acaba sendo descoberto por uma guarnição de Soldados de Athena. Estes levam a notícia até Algol. O Cavaleiro de Prata de Perseu, na incumbência da proteção daquela área como um dos Capitães da Guarda, e ciente deste, e de outros fatos, decide pessoalmente ir até a aeronave, onde espera confrontar os invasores em sua dedutível fuga do Santuário. Partindo de um raciocínio similar, ele também envia até o Sunion, um de seus Tenentes, Cavaleiro de Bronze, já que a prisão poderia ser outro bom palpite com relação aos intrusos e suas pretensões. Enquanto isso, o passado de Rachel vem à tona por meio desta, quando a dupla de Cavaleiros Negros interinos, finalmente chega até o local do cárcere de Kanon.

 

Epílogo (Sexta Parte): Garan e Aioros protagonizam, nos céus do Santuário, um duelo bastante equilibrado. Ao mesmo tempo, no Sunion, a narrativa de Rachel sobre seu passado prossegue, e essa começa a se expor, mostrando-se atormentada, o que acaba deixando Sendhil, bastante preocupado; fica sabido que ela, no tempo que estivera com os seguidores de Athena, fora ordenada Amazona de Bronze da constelação de Triângulo Austral. Noesis teria cuidado de sua preparação no controle das Anomalias. Fizera o mesmo com relação à Shaka. As recordações de Rachel se encaminham para um confronto com Phoebos. Em outro ponto do Santuário, a velha bruxa, que detinha o controle dos Cavaleiros Negros na Ilha da Rainha da Morte, a tudo observava com um macabro interesse; ao seu lado, imponente, estava Mu, que se apresentava como o Áries Negro e com a alcunha, de Warlock.

 

Epílogo (Sétima Parte): A narrativa de Rachel, sobre seu passado, envolvendo, entre tantas coisas, uma crise com Phoebos, chega ao seu final. Determinada em concluir o propósito de libertar Kanon, que a fez invadir o Santuário e chegar até o Sunion, a Amazona Negra de Triângulo, juntamente com seu parceiro Sendhil, vê colocar-se em seu caminho, um Cavaleiro de Bronze.

 

Epílogo (Oitava Parte): Depois de um confronto acirrado contra Kraisto, um dos Tenentes do Santuário a serviço de Algol, e também Cavaleiro de Bronze da constelação de Cruzeiro do Sul, a dupla Rachel e Sendhil, conseguiu libertar Kanon. A história então regrediu um pouco no tempo, mostrando agora em detalhes, como sucedera o massacre de Geist. A Amazona de Bronze de Cabeça da Medusa havia se deparado com o local onde se encontravam a velha bruxa, Warlock e o séquito de Cavaleiros Negros que os acompanhavam, e pagara com a vida por causa disso.

 

 

 

 

Epílogo (Prólogo da Revolta dos Cavaleiros Negros) — penúltima parte

 

 

No descampado próximo ao Sunion,

com Garan e Aioros, paralelo a

toda decorrência que levara

Kanon a ser liberto.

 

 

Cerca de quase uma hora se passara desde que os Sagitários Negro e Dourado — galgaram os céus depois de terem se confrontado em terra, semelhantes estes, durante seus voos, a ’anjos’, dando início aquele calamitoso embate de poderes, que se prosseguisse e continuasse intensificando, não só os destruiria, como a tudo mais que estivesse no caminho.

 

De suas mãos próximas, quase se tocando, apontadas uma para o outro, seus Cosmos despejavam, na forma assumida de um globo resplandecente, luz e destruição.

 

Mais e mais daquela monstruosidade energética ia ganhando terreno, afundando a si própria no solo e elevando-se até as mais altas nuvens do firmamento, obliterando esta, a nível molecular, aquilo que desgraçadamente tocava.

 

Um arco, que mais se parecia com uma ‘coroa’, devido às fagulhas que desse, incessantemente escapava, agitava-se, recortando ao meio, na vertical, o globo, indicando neste, duas partes indistintas em oposição.

 

Até então, a ‘coroa’ permanecera detida no centro, em clara amostra do equilíbrio daquelas forças conflitantes.

 

Suspensos no vácuo do interior daquela esfera, onde apenas o calor incinerante de seus Cosmos se fazia presente, os contornos, tanto de Garan como de Aioros, pouco, ou nada, revelavam-se perceptíveis.

 

As vestimentas metálicas de ambos, idênticas em seus contornos, discrepantes apenas nas matizes — uma em negro e a outra, em ouro — maculadas estas, cada qual, em suas indestrutibilidades, por hastes que as cravejavam, despejadas essas, outrora pelo embate de suas “FLECHA ALADA”, reverberavam como que pranteassem em agonia, convulsionadas por violentas sacudidelas que, juntamente com a fornalha que era aquele ‘mundo’ em volta, atestavam severamente suas integridades, perto isso de já atingir o limite tolerável, com as colorações das mesmas, confundindo-se com a da energia escaldante que as engolfava.

 

— Pelo visto as desconfianças do Grande Mestre tinham razão de proceder, Shaka...

 

“Isso, a nossa frente, não é outra coisa, senão uma Guerra dos Mil Dias.”

 

Concluíra pesaroso Aldebaran, dirigindo suas palavras ao outro do seu lado.

 

O Cavaleiro de Ouro de Virgem, por sua vez, de olhos fechados e semblante indecifrável, mirando também aquele imenso astro luminoso, anuiu mediante a um gesto quase imperceptível de cabeça.

 

Encontravam-se a uma distância segura daquele pavoroso fenômeno destrutivo, detidos magnificamente numa elevação rochosa, onde o áureo de suas couraças elípticas, somados ao tremular de suas capas alvas, faziam-nos destacar na paisagem.

 

Aos pés deles, recém capturado pelo Cavaleiro de Ouro de Touro, esparramado sofregamente no chão úmido, em meio a poças formadas pela água da chuva, que por sua vez, caíra dos céus sem trégua praticamente toda aquela noite, um diminuto vulto, com uma Máscara de Silêncio a ocultar suas feições, vestido dos pés a cabeça com um capuz, trazia repousado no solo, bem ao seu lado, um guarda-chuva recolhido; segurava também, junto ao peito, cuidadosamente um frasco; aos prantos, pedia para que o deixassem ir ao encontro de seu mestre Aioros.

 

— Na pressa ele se esquecera de tomar seu remédio...

 

“Assim seu resfriado vai piorar.” — Insistia.

 

— Sentimos muito por impedi-la nesse seu intento...

 

Desculpou-se, Aldebaran levando seu olhar, repleto de complacência, até a jovem que choramingava.

 

Pediu ela então para que ajudassem o Cavaleiro de Ouro de Sagitário.

 

Recebeu nova negativa em resposta, seguida de uma explicação, que em suma, deixava claro a jovem, que não haviam sido enviados ali, para interferir no andamento daquele combate.

 

Contrariada, Angela(1) mordeu o lábio inferior, odiando aqueles dois.

 

De forma deliberada, a Aspirante a Armadura de Bronze de Columba, bombardeava-os com emanações psíquicas bastante sutis, na forma estas, de delicadas penas astrais, visíveis apenas para telepatas com alto grau de poder; as penas desabavam em profusão dos céus, desprendidas anteriormente do rastro do voo abrupto alçado por um bando de pombos, presentes estes, num cenário ilusório que sobrepusera à realidade, por um átimo, com os contornos do espaço sideral onde permanecia a constelação de Columba; à medida que as penas tocavam em Shaka e Aldebaran, aderiam as suas majestosas figuras, sendo absorvidas de imediato, por suas almas, potencializando por consequência, as emoções destes, já despertadas por Angela com sua encenação; a intenção da menina era forçá-los a fazer o que ela queria.

 

Contudo, para sua mais completa consternação, não estava dando certo.

 

A mente deles revelava-se forte demais para seus poderes mentais, ainda em desenvolvimento.

 

Mesmo empecilho enfrentado quando usava do mesmo ardil, para seduzir seu mestre, apesar de que Aioros, recentemente, mostrava-se um pouco menos irredutível o que erroneamente a levara deduzir que suas habilidades tinham progredido além da conta.

 

Aquela atual situação mostrava o quanto ainda deveria se esforçar em seu preparo.

 

Mas longe daquilo continuar a desanimá-la, levando-a irritação e ao desespero, passara a lhe causar euforia e a enchia de sonhos, pois se seu Tutor não estava sendo afetado por sua telepatia isso queria dizer que o Cavaleiro de Ouro de Sagitário estava verdadeiramente gostando dela!

 

— Mesmo se quiséssemos não poderíamos interferir nessa luta...

 

Prosseguia Aldebaran, em seu falatório, cortando os devaneios da discípula de Aioros.

 

— Veja...

 

Apontara, com o olhar, para o globo resplandecente, que mais e mais avançava em sua magnitude colossal.

 

— A energia liberada pelo seu mestre, e aquele Cavaleiro Negro, continua perigosamente aumentando.

 

“Tamanha força aniquilará tudo que estiver em seu alcance.”

 

“O que torna arriscado, mesmo para Shaka e eu, nos aproximarmos sem a devida prudência.”

 

O guardião da segunda casa zodiacal levou suas vistas para a menina, certificando-se que a mesma, apesar de dar mostras de ainda permanecer perdida nos próprios pensamentos, lhe prestava um pouco de atenção.

 

— Qualquer interferência externa a distância também deve ser evitada, já que fatidicamente desestabilizaria a integridade daquela massa energética...

 

“Caso acontecesse sua ruptura o resultado seria catastrófico.”

 

“Era bem provável que todo o Santuário voasse pelos ares!”

 

O Cavaleiro de Ouro de Touro empertigara, assustando ainda mais Angela, agora não com suas palavras, mas com seu porte avantajado que fazia sua figura ser remetida ao de um gigante halterofilista.

 

— Por isso fomos enviados para cá...

 

“Temos, como missão, impedir que as consequências danosas dessa Guerra dos Mil Dias extravasem, gerando algo como uma barragem, para contê-la.”

 

A jovem engolira seco; apesar de toda desordem de sentimentos que a consumia naquele momento, ia aos poucos se refazendo, tomando consciência da gravidade de toda aquela circunstância.

 

Em vista de que era inútil continuar tentando manipular aqueles dois, desistira do poder de sua INFLUÊNCIA CARNAL; no entanto, à medida que cancelava a técnica, fazendo com que as penas que caiam do firmamento desaparecessem, Angela, sem se preocupar de ser flagrada por Aldebaran e Shaka, dava início a execução da habilidade mais impressionante da constelação de Columba:

 

ESPERANÇA DE NOÉ!

 

Ainda esparramada no solo, depois de ter guardado o remédio, para o resfriado de Aioros, nas vestes que estavam por de baixo do capuz que a cobria, materializara, mediante a todo seu poder reunido, um pombo alvo, em suas mãos.

 

Como as penas da INFLUÊNCIA CARNAL, somente indivíduos com as faculdades do seu Sexto Sentido plenamente desenvolvidas, enxergariam a figura daquele diminuto ser, que apesar de tratar de uma projeção astral, aparentava, em cada mínimo trejeito que lhe escapava, imbuído de vida.

 

De olhos fechados e expressão serena, Angela transmitia agora, mentalmente ao pombo, a imagem daquilo que desejava que ele encontrasse.

 

Feito isso, libertara o pássaro que sem demora, adejara aos céus, desaparecendo tão logo das vistas.

 

Cabia a Aspirante agora aguardar pelo seu retorno.

 

Se o que procurava estivesse consigo no mesmo Plano, pois se não estivesse o pombo regressaria até ela sem a informação, a ave, agindo como um omnipata, o encontraria através da mente daqueles que recentemente o tinham visto. Feito tal coisa, voltaria para revelar a Angela, o paradeiro daquilo que a jovem procurava.

 

Quando soubesse onde Aioria se encontrava, Angela se serviria de outra técnica da constelação de Columba — POMBO CORREIO — para lhe enviar um chamado telepático com um pedido de ajuda.

 

Apostava tanto na força, mesmo o irmão mais novo de seu mestre sendo, como ela, igualmente um Aspirante, e, diga-se de passagem, alguns anos mais jovem (Angela possuía, até o momento, onze anos e Aioria, sete), como na disposição do menino em atendê-la.

 

Para o espanto do trio, quando estes, cada qual, se mostravam imersos em seus propósitos, e daqueles mais que pudessem se encontrar despertos, e ao ar livre àquela hora, acabava de ocorrer um estranho fenômeno nos céus noturnos que encimavam o Santuário:

 

Uma ‘capa’ de brilho difuso, no sentido horizontal, imbuída da mesma miscelânea de cores de um arco-íris, revelara-se, preenchendo todo o espaço, antecedida esta, pela magnetização súbita do ar que ao ser bombardeado pelos feixes solares que partiam das mãos de um estranho e quase imperceptível vulto, suspenso esse, nos ares por meio apenas do esplendor de seu Cosmo, dera origem aquela aurora que mediante ao seu ondular e beleza incomparável, hipnotizava a todos que a miravam.

 

A comoção fora geral, quando dela, imagens começaram a surgir e ganhar movimento.

 

Era como se o firmamento tornara-se um imenso televisor!

 

Acompanhavam a fabulosa animação, narrando cada um dos seus conteúdos e personagens, uma voz desgastada pelo tempo.

 

Parecia está, vir de todos os lados, ribombando como o alarido de trovões.

 

Cenas da última Guerra Santa contra Hades — Espectromachia — estavam sendo exibidas!

 

Davam ênfase em Shion que naquela época, há mais de duzentos anos passados da data de agora, apresentava-se, não como o Grande Mestre, mas na figura de um odioso Espectro a serviço do Deus dos Mortos.

 

No Templo de Athena, assentado em seu trono, majestoso e imperturbável como a um monumento de adoração, o velho Lemuriano acompanhava aquela passagem longínqua de sua vida sendo desnudada, como que em pérfida violação, por intermédio do som daquela voz, que lhe trazia algo de vagamente reconhecível, e também através das imagens que sua mente sem igual, captava dos outros que a tudo assistiam e pensavam sobre o assunto.

 

Em sua companhia, onde sua imobilidade e silêncio o faziam se mesclar a mobília e objetos de arte que figuravam aquele salão, aguardando pacientemente por qualquer ordem que lhe fosse endereçada, onde o mesmo deveria passar adiante e cuidar de sua execução, aos pés do pequeno lance de degraus que levavam até o trono que acomodava Shion, postado dignamente de joelhos, com sua aparência exalando a costumeira magnificência aristocrática que lhe era tão característica, olhos fechados, bigode farto e bem aparado que induzia a constatação errônea que fosse mais velho, segurando em uma das mãos, a tiara de sua almagama metálica que reluzia em prata nos contornos da constelação de Altar, encontrava-se Nikol(2), aquele que, imbuído do título de Senescal, servia pessoalmente ao Grande Mestre e era abaixo dele, e da própria Athena, a maior autoridade em todo o Santuário, tendo em mãos, inclusive, a possibilidade de governá-lo interinamente caso assim se fizesse necessário.

 

As cenas mostradas da traição de Shion para com Athena no passado estavam acessíveis, em registros literários, para qualquer membro do Santuário, desde o mais humilde aos proeminentes, que desejasse consultá-los. Claro que eram muito poucos aqueles que o faziam ou davam a devida importância para tais fatos quando acabavam de lê-los. A ignorância generalizada, mesclada ao descaso, era promovida pelo próprio Grande Mestre, com o apoio incondicional dos Oficiantes que o assistiam, onde esses traziam a convicção que nada de benéfico poderia vir da promoção daquilo, muito pelo contrário, talvez fomentasse a desconfiança ou mesmo rancores do que havia ficado para trás.

 

Até então não era o que estava acontecendo.

 

Mesmo sendo toda aquela exibição de uma vivacidade perturbadora, que excedia a experiência de uma mera leitura, as pessoas que a acompanhavam, mesmo que impactadas por cenas que traziam Shion, depois de sua trágica morte como Cavaleiro de Ouro de Áries, que sucedera bem antes dessa última Espectromachia com Hades começar, fazendo um acordo juntamente ao Deus dos Mortos para que pudesse regressar à vida, não externavam revolta ou depreciação pela figura do Grande Mestre.

 

Contudo, aquilo que veio em seguida a exposição do resultado da vergonhosa barganha de Shion, começou a abalar isso:

 

Da mesma forma que os demais Espectros, que por sua vez, tratavam-se de guerreiros derrotados e mortos, pertencentes originalmente a outras divindades, o Grande Mestre, depois da aliciação de Hades, recebera uma nova ‘casca’ mortal que lhe permitia agora, caminhar na companhia dos vivos, e como testemunho perpétuo do pacto que lhe propiciara tal façanha, envergava a Sapúris(3) de Áries.

 

Preso a uma maldição que o forçava obedecer ao Deus dos Mortos, do contrário, perderia a nova existência que lhe fora atribuída, Shion era mostrado assassinando implacavelmente aqueles que outrora fora seus pares — alguns dos espectadores desviavam o olhar ante a consternação e selvageria do que estava sendo mostrado.

 

Depois a atuação de Shion encerrava naquilo que deveria ser o clímax de tudo aquilo, com ele, estranhamente exibindo-se muito... mas muito mais velho, trajado com a Armadura de Ouro de Áries e portando o elmo característico dos Grandes Mestres, se servindo da técnica proibida dos mesmos — EXCLAMAÇÃO DE ATHENA(4) — para retirar da moça, que naquela época era o invólucro mortal da Deusa da Sabedoria, sua preciosa essência divina, convertendo tal poder amealhado, num único e portentoso raio de ação, que levava por sua vez, toda aniquilação presente no Cosmo da filha de Zeus.

 

Todos ali no Santuário sabiam das consequências póstumas de uma EXCLAMAÇÃO DE ATHENA, por isso as expressões destes, na sua esmagadora maioria, revelavam tristeza e pesar.

 

Uma vez que fosse usada pelo Grande Mestre, e, diga-se de passagem, apenas esse trazia em mãos, essa possibilidade, a EXCLAMAÇÃO DE ATHENA causaria, de imediato, a desencarnação da Deusa, matando seu invólucro, e fazendo seu espírito voltar para seu lugar de repouso eterno, ou seja, o local onde estava firmado o Santuário. Ela então teria que aguardar pela passagem de alguns séculos, restabelecendo as forças perdidas em sua encarnação anterior, para novamente fazer-se atuante no mundo físico, tomando como seu, um corpo mortal.

 

Apenas um indivíduo, em todo o Santuário, parecia estar se divertindo com tudo aquilo.

 

E este era...

 

SAGA!

 

 

 

 

Enquanto isso,

no limiar da fronteira da

Área Leste do Santuário.

 

 

 

“Tudo que já aconteceu e foi visto não passa de luz refletida e essa, viaja supostamente errática e em constância, pelo universo.”

 

Sabendo dessa verdade, Mu, ou como também era chamado, Warlock, aprendera a resgatar as imagens do passado de determinado local, e de outros eventos ligados a eles, e a transmiti-las, com seu Cosmo, através da técnica:

 

AURORA MNEMÔNICA!

 

Uma vez que tivesse magnetizado certa área e a bombardeado com feixes solares, o Áries Negro podia trazer a tona os fatos que ali ocorrera nos tempos de outrora. Quanto mais longínqua fosse à regressão pretendida, mais custoso e complicado tornava-se o emprego daquela técnica.

 

Tinha dentro dessa sua capacidade, inclusive, Mu, a possibilidade de optar por qualquer espaço, dentro dos limites do local, para passar sua animação. Ainda era capaz da determinação do tamanho das imagens e até mesmo selecionar o que seria, ou não, mostrado, excluindo algumas coisas que compunham a cena, tudo isso, feito por meio da condução do brilho solar que ele emanava sobe a magnetização dispersa.

 

Enquanto o Áries Negro, em meio à chuva, suspenso nos céus noturno como a uma aparição, se ocupava daquilo, a velha de capuz, que havia permanecido antes ao seu lado, no solo, passara a narrar o que estava sendo exibido.

 

Servia-se de um feitiço, provindo de uma das anotações nas páginas do livro negro que trazia junto de si, para gerar uma ampliação cósmica, de sua voz desgastada, para se fazer ouvida por todos que estavam ali no Santuário.

 

Próximos dela, postados de joelhos e cabeça baixa em nítida amostra de servidão, e também atentos ao que acontecia, faziam-se presentes o bando de Cavaleiros Negros que tinham os acompanhado naquela invasão ao Santuário.

 

As costas deles, como resultado de seus rancores e violências desmedidas, levantavam-se os escombros de uma torre de vigilância, tendo o chão que a adornava, permeado de inúmeros corpos mutilados de Soldados de Athena.

 

Dentre os chacinados havia também o cadáver de uma Amazona de Bronze(5) que antes de seu fim trágico, tirara de ação, dois de seus algozes, os Cavaleiros Negros de Centauro e Grou, fazendo-os acreditar que haviam sido transformados em pedra por intermédio de uma ilusão causada pelo alucinógeno contido no veneno inoculado por serpentes robóticas disparadas de dois canhões que acoplavam-se nos braços de sua Armadura; dessa forma, como ‘estátuas vivas’, permaneciam de pé Francesco e Priscila, sem esboçar a mínima das reações e daquele jeito assustador continuariam até que seus corpos não mais pudessem aguentar.

À medida que a velha, mesmo sentindo sinais de esgotamento pelo esforço, que para ela, era demasiado, ia narrando, numa eloquência que ganhava contornos insanos, aquilo que era mostrado por Mu, buscando induzir a discórdia e oposição, todos que ali estavam no Santuário, contra a figura do Grande Mestre pelo que esse, no passado, tinha feito na última Guerra Santa envolvendo Hades, também revelara seu nome — Sasha — apresentando-se como aquela que fora o invólucro de Athena naquela época.

 

Dissera que sobrevivera a EXCLAMAÇÃO DE ATHENA, perpetrada pelo traidor Shion, graças a um resquício de poder divino da própria Deusa, que por milagre, permanecera consigo.

 

Inclusive fora por meio desse mesmo ‘milagre’ que sua vida mundana tinha se estendido até aquele presente momento.

 

Desde então, Sasha, se dedicara em se preparar para o dia que confrontaria aquele que tomara para seu proveito particular o controle do Santuário e por consequência, de todo o mundo.

 

Um detestável tirano que não só tornara-se um Espectro de Hades, traindo e assassinando aqueles que outrora lutaram ao seu lado e o tratara como a um dos seus, mas como a ela própria, a quem na figura terrena de Athena, fizera votos de servir, e que também ‘matara’ por intermédio do uso da técnica proibida dos Grandes Mestres — EXCLAMAÇÃO DE ATHENA.

 

Tudo isso para que Shion tivesse exclusivamente para si, o poder!

 

Mas agora tudo aquilo estava prestes a acabar.

 

Sasha e seus aliados finalmente tinham vindo ao Santuário para declarar a todos essa verdade.

 

Esperavam conseguir apoio contra esse mal, que por tanto tempo instalara-se no Santuário e passara a corroê-lo como a um câncer.

 

— E não havia dúvidas quanto à decadência do atual Santuário...

 

Proclamava a velha já quase sem fôlego chegando aos finalmente de sua narração.

 

— Sua prisão, colocada como expugnável por eras afim, havia sido violada...

 

“Seu maior campeão de agora estava prestes a ser derrotado.”

 

“Tudo isso acontecendo numa única noite!”

 

Ao mesmo tempo em que Sasha pronunciava essas coisas, Mu exibia, não mais o que Shion fizera cerca de duzentos anos atrás na Espectromachia, mas sim, cenas do que estava acontecendo por ali em tempo real, a partir da AURORA VIGENTE, com Rachel adentrando o Sunion para libertar um dos seus cativos e o desenrolar da luta ferrenha entre Garan e Aioros que havia se tornado uma Guerra dos Mil Dias.

 

Por intermédio das implicações daquilo que agora estava sendo revelado, uma nova onda de consternação passara a oprimir aqueles que residiam no Santuário.

 

Imaginando ser aquele o momento propicio para arrebatá-los, Sasha lançou seu apelo derradeiro, onde supunha que iria culminar numa revolta contra o Grande Mestre, e por consequência, na sua deposição do poder.

 

Ansiosa, esperava por uma manifestação favorável, e até mesmo inflamada, tanto de Cavaleiros, como também daqueles outros que compunham a sociedade do Santuário.

 

Em sua mente, em regozijo, já podia vê-los marchando consigo a sua frente, liderando-os, juntamente com seus Cavaleiros Negros ao seu lado, até o Templo de Athena, onde puniriam, finalmente, Shion pelos seus crimes.

 

No entanto, para o eterno desgosto de Sasha, nada daquilo se sucedera.

 

Não houvera aclamação e nem mesmo o mínimo esboço que poderia sugerir uma revolta.

 

Todos, sem exceção, mesmo que profundamente abalados pelo que ela acabara de lhes mostrar, não davam sinais de quererem se voltar contra Shion.

 

E como, em meio às lágrimas que lhe banhavam a face envelhecida, sendo amparada por Mu que, por sua vez, descera dos céus para confortá-la após o encerramento de sua AURORA VIGENTE, Sasha os desprezara por isso. Desejava, nos recôncavos mais obscuros de sua alma, condená-los a destruição por tamanha covardia e insubordinação.

 

“Ela fora Athena!”

 

“Viera até eles agora como sua salvadora desnudando a falência moral de Shion e sua tirania.”

 

“Mostrara o quanto aquilo os deixara vulneráveis.”

 

“O que mais precisavam para agir?!”

 

Estava ainda remoendo essas coisas quando procedera em resposta, até sua mente, e a de todos mais presentes no Santuário, a voz telepática de Shion:

 

“Nosso propósito transcende os pecados que possamos ter cometido.”

 

“Servir a Deusa da Sabedoria faz com que qualquer diferença entre nós, trazida ou não, outrora de nossas existências mundanas, desapareça para dar lugar a um sentimento único de irmandade.”

 

“Não há no nosso meio homens... mulheres... negros... brancos... ricos... pobres... capitalistas... socialistas... católicos... protestantes... judeus... muçulmanos... ateus... pecadores... ou santos... nem aqueles que vieram desse ou daquele país... que fala essa ou aquela língua... que possua esse ou aquele costume... aqui somos todos seguidores de Athena!”

 

“Mas percebo que o tempo que passara aqui conosco, Sasha, não lhe servira para compreender a importância de tal coisa.”

 

“Muito provável, que a forma como se envolvera com aquele que deveria ser seu guardião pessoal, e também os sentimentos que sempre a atrelaram ao seu nefasto irmão, tenham-na cegado para isso e outras coisas a mais.”

 

A velha queria poder dizer algo para rebater aquilo, dar veemência as acusações que já fizera contra o Grande Mestre, no entanto o que veio a seguir lhe calou de tal forma que ela parecia perdida como se tudo não passasse de um horrível pesadelo.

 

Nos céus do Santuário, Shion, como fizera anteriormente Mu, quando lançara mão de sua AURORA MNEMÔNICA, trazia agora o passado até eles, exibindo imagens mudas de Sasha, como Athena, em seu próprio leito entregue as carícias de Tenma, Cavaleiro de Bronze de Pégaso daquela geração, e Guardião da Deusa.

 

Indo adiante era mostrado Alone, irmão de Sasha; da mesma maneira que a jovem tinha sido escolhida para ser o receptáculo mortal da Deusa da Sabedoria, Alone fora pretendido por Hades.

 

Encerrava-se com a cena da EXCLAMAÇÃO DE ATHENA onde todo seu contexto era agora revelado:

 

Sasha, em meio a vastidão arrasada do Lost Canvas que trazia o resultado calamitoso do último embate entre Cavaleiros e Espectros, vestida esplendorosamente com a Égide(6) de Athena, se negava a desferir o golpe derradeiro em seu irmão, o que teria colocado um ponto final naquela Guerra Santa.

 

Sem esboçar resistência, com a sinistra Égide de Hades seriamente avariada, Alone, esparramado no solo, tendo a espada do Deus dos Mortos cravada no chão bem ao seu lado, segurava ternamente em seus braços, o corpo moribundo de Tenma, que por sua vez, trajava o que tinha restado de sua Divinal(7) de Pégaso.

 

Um quarto vulto era então mostrado se aproximando do trio.

 

Tratava-se de Shion!

 

Este, com a aparência de um ancião que transparecia se tornar mais envelhecido, a cada instante, portava a Armadura de Ouro de Áries e o elmo dos Grandes Mestres. Ao contemplar a Deusa Athena em Sasha sucumbindo, de alguma forma, a vontade humana que agora a governava, Shion determinara o uso da EXCLAMAÇÃO DE ATHENA.

 

Vendo a irmã tombar, agora não sendo mais que um cadáver de uma reles mortal por ter tido, arrancada de si, a essência da Deusa que a escolhera, Alone, totalmente transtornado ante aquele ato que julgava como profano, erguera-se apanhando a lâmina do solo, deixando em segurança, ao mesmo tempo, os corpos de Sasha e de Tenma, retidos em reluzentes bolhas flutuantes.

 

Enquanto o invólucro de Hades procedia daquela forma, Shion tentava, com muito custo, domar o poder magnânimo que acabara de amealhar, direcionando-o fatidicamente contra seu alvo.

 

Jamais teria conseguido, caso os dedos de umas das mãos de Dohko, Cavaleiro de Ouro de Libra, que agora também se revelara no Lost Canvas, como um dos sobreviventes, não tivesse fechado em torno do seu pulso, entrando em contato direto com a carga energética da EXCLAMAÇÃO DE ATHENA, propiciando a Shion, a firmeza que necessitava para mirar e disparar.

 

Por um instante, homens e Deus se encararam!

 

As imagens de cada qual, refletindo, como a um espectro, em suas retinas.

 

Nada mais havia para eles a não ser um e outro.

 

Corpos, mentes e espíritos haviam chegado ao seu limite.

 

A inabalável convicção de suas causas, maculando a beleza sublime de suas feições.

 

Veio então a investida final:

 

Aos berros sem som de sua NULIFICAÇÃO TOTAL, Alone, enquanto acelerava, com passadas velozes, na direção dos estáticos, Shion e Dohko, trazia este, a lâmina que cingia direcionada lateralmente para baixo, bem rente as suas pernas e próxima do chão, fazendo dela derramar, um caudaloso jorro negro, que como chagas malditas, se espalhavam rapidamente, tingindo de ébano, quase que de imediato, todo o mundo ao redor.

 

O fio das existências dos Cavaleiros de Ouro de Áries e Libra, que ficavam de posse exclusiva das Moiras, revelaram-se para Alone; em meio à negritude, que agora pairava como sendo o cenário onde se faziam atuantes, tais filamentos podiam ser vistos sobrepostos a imagem corpórea desbotada de Shion e Dohko.

 

Apesar de somente as filhas de Pontus poderem macular esses fios, a Espada de Hades também continha tal singularidade, e quando Alone, os cortassem, não só as vidas daqueles dois seriam ceifadas, como, do mesmo modo, suas próprias existências que acabariam apagadas dos três Planos.

 

Mesmo qualquer lembrança ou registro que houvesse deles, sumiriam.

 

Em suma, o ato perpetrado pela NULIFICAÇÃO TOTAL equivaleria ao fato dos Cavaleiros de Ouro de Áries e Libra jamais terem nascido!

 

No entanto, o arco ascendente, descrito pela lâmina desconcertantemente alva, com runas indecifráveis e diminutas no seu meio a dividir as bordas cortantes que culminavam numa haste pontiaguda, não encontra realização. Acaba interrompido pela deflagração da EXCLAMAÇÃO DE ATHENA que a tudo consome.

 

De uma visão do espaço é possível contemplar o ponto cintilante de luz que propelia da Terra, como a um sol, que acabara de brotar, do próprio planeta.

 

À medida que essa luminosidade titânica ia encolhendo, após essa, atingir o auge de sua amplitude, a visão geral retrocedia com ela, apresentando a ausência definitiva do Lost Canvas, que não mais existia, e mostrando apenas as figuras de Shion e Dohko.

 

A exibição chegara ao seu fim do mesmo modo que fora, há mais de duzentos atrás, com aquela Guerra Santa.

 

Mu buscava amparar a figura de Sasha que se mostrava inconsolável.

 

Diante de tamanho descontrole, os Cavaleiros Negros ali com eles, pareciam preocupados.

 

“Deve agora perceber, Sasha, o tamanho do seu erro ao ter vindo aqui e apontado meus pecados de outrora, usando-os como catalisador, para uma revolta, principalmente quando mentira e tentara manipular, de forma tão desprezível, a verdade.”

 

As palavras mentais do Grande Mestre feriam a velha mais que qualquer outra coisa neste mundo.

 

Tudo fora revertido contra ela e como odiava Shion ainda mais por isso.

 

Em posição, quase fetal, Sasha se encolhia, choramingando nos braços do Áries Negro que a envolvia com todo cuidado.

 

De seu trono, o Grande Mestre parecia ainda mais inabalável e inatingível.

 

Em verdade, tudo aquilo que estava acontecendo, isto é, a invasão e revolta de Sasha com seus subordinados, fora prevista pelo próprio Shion, que inclusive, teria a induzido, tudo em prol de uma conveniência que lhe poupara o trabalho de caçá-los e ao mesmo tempo lhe dava a vantagem de confrontá-los dentro do Santuário.

 

Isso tudo sendo possível graças às valiosas informações lhes passadas pelo Cavaleiro de Bronze de Fênix(8) que, diga-se de passagem, fora condenado, pelo próprio Shion, devido a suas ações de violência desmedidas, ao exílio na Ilha da Rainha da Morte onde deveria manter sob controle os Cavaleiros Negros que por ali já estavam.

 

Quando Sasha e Mu chegaram à ilha, na companhia de alguns Proscritos, dando início seu controle sobre a mesma, esmagando qualquer oposição, Okame relatara, ao Grande Mestre, o acontecido. Mediante a revelação do que estavam fazendo, Shion ordenara que o Cavaleiro de Bronze de Fênix forjasse seu desaparecimento e que se mantivesse escondido por ali para que pudesse vigiá-los.

 

Claro que o Grande Mestre preferia manter tudo àquilo em segredo.

 

Pois, ao proceder daquela forma, vidas tinham se perdido.

 

Mesmo com toda irmandade que os unia, alguns, certamente, não veriam tais sacrifícios, com o discernimento adequado.

 

E havia ainda aquele Proscrito, Garan, que estava fazendo frente ao poderio de Aioros, e a própria violação do Sunion.

 

Ocorridos que, em sua procedência, nem remotamente foram cogitados.

 

Em vista dessas coisas, novamente Shion agia daquela forma prudente, contudo, um tanto questionável, ocultando da maioria, fatos como aqueles, para evitar uma desestabilização, que julgava desnecessária e até prejudicial, para o seu governo.

 

Sasha...” — chamara ele.

 

“O seu tempo aqui conosco já se fora.”

 

“Não é bem vinda aqui!”

 

“Dá mesma forma direciono minhas palavras a esses renegados que a seguem e ousam macular o solo sagrado deste Santuário com suas presenças imundas.”

 

— E-Ele não pode saber onde estamos... p-pode?!

 

Aterrorizada, a velha, com as vistas banhada em lágrimas, desprovida de seu habitual raciocínio lógico devido ao choque traumático da AURORA MNEMÔNICA de Shion, direcionava suas palavras de incerteza e medo ao jovem Lemuriano que a confortava.

 

— Não creio.

 

Respondeu-lhe o Áries Negro com uma calma insuportável.

 

Sua convicção partia de que Sasha, de antemão, lançara sobre aquela área, um feitiço contendo um vácuo cósmico, que por sua vez, encobria a manifestação de quaisquer poderes em atividade por ali. E como ele, por intermédio de suas habilidades psíquicas, personificadas estas, através da técnica ARMADURA MENTAL, tinha outrora fechado a mente de todos que os acompanhavam, não havia como serem percebidos ou mesmo detectados.

 

Foi então que seu olhar, na busca por algo que pudesse contradizer aquela certeza, se dera com os corpos, sem vida, dos Soldados de Athena e da Amazona de Bronze de Cabeça da Medusa.

 

Na visão desta última foi que Mu percebera, com um risco de suor, a lhe cortar a bela face andrógina, os meios que haviam permitido que fossem descobertos.

 

Como que para confirmar sua dedução, no mesmo local onde se encontravam os corpos e as ruínas do que fora uma torre de vigilância, um clarão portentoso desabara inadvertidamente do firmamento, trazendo em meio ao desvanecer daquela luminescência radiante, a silhueta majestosa de um dos Cavaleiros de Ouro.

 

O vulto áureo não era outro, senão...

 

SAGA!

 

 

(1): Para que todos se lembrem, Angela já havia sido mostrada por duas ocasiões no Gaiden de Saga e Kanon. Na quarta parte do Epílogo, fizera uma participação ao lado de Aioros que fora revelado como sendo seu Tutor. Mais a frente, na sexta parte, fora mostrada brevemente indo ao encontro do Cavaleiro de Ouro de Sagitário, correndo desabalada pelas adjacências do Santuário, para lhe entregar o remédio com o qual estava tratando o resfriado que o acometia.

 

(2): Nikol já fizera uma atuação neste Gaiden, para ser mais exato, na Parte 5, onde, para que se recordem, colocara-se a disposição de Saga, do mesmo modo que fizera anteriormente Máscara da Morte, sendo igualmente junto desse, um dos aliados do Cavaleiro de Ouro de Gêmeos.

 

(3): Como visto nesta penúltima parte do Epílogo do Gaiden de Saga e Kanon, destoando do que é proposto pelo universo de Saint Seiya e suas demais franquias, as Sapúris, que por sua vez, servem de vestimentas para os Espectros de Hades, não tem seus aspectos inspirados nos seres que são mostrados na Divina Comédia de Dante Alighieri e nem dos que foram agregados de outras mitologias, tratam-se, segundo a adaptação exclusiva para as Crônicas de Athena, de réplicas dos robes originais de combatentes, pertencentes a outras divindades, que após serem derrotados e mortos, teriam aceitado servir ao Deus dos Mortos em troca de voltarem à vida.

 

(4): Mediante aquilo que é proposto pelo universo das Crônicas de Athena em uma de suas muitas alterações, e que ficara evidente nesta penúltima parte do Epílogo, a EXCLAMAÇÃO DE ATHENA trataria de uma técnica exclusiva, e proibida, pertencente apenas aos Grandes Mestres, onde esses, ao retirar a essência divina da Deusa de seu receptáculo mortal, causando, por consequência, sua morte, o converteria numa terrível arma de destruição. Vale lembrar que, nas demais vertentes de Saint Seiya, a EXCLAMAÇÃO DE ATHENA sucede da comunhão cósmica dos poderes de três Cavaleiros de Ouro.

 

(5): Lembrando que o tal cadáver da Amazona de Bronze mencionado pertence a Geist.

 

(6): Não me custa dizer que, aqui nas Crônicas de Athena, as vestimentas portadas pelos Deuses do Olimpo, são nomeadas de Égide e não de Kamui como acontece nos demais universos de Saint Seiya.

 

(7): Divinal foi o termo escolhido, dentro dos paradigmas particulares das Crônicas de Athena, para determinar as Armaduras Divinas com o qual alguns Cavaleiros apresentaram-se dentro de Saint Seiya e adjacências.

 

(8): Trazendo como recordação a mente de todos, Okame, o Cavaleiro de Bronze de Fênix, fora mencionado, muito rapidamente, na primeira parte deste Epílogo.

Editado por Leandro Maciel Bacelar
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